Nosso baile perfumado

Nos mudamos do sertão baiano de volta ao Sudeste no final de 1989. Eu tinha meus 11 anos muito bem vividos. Foi o fim de um período ímpar. Morávamos em uma cidadezinha chamada Pilar (também conhecida por Caraíba, por causa da Caraíba Metais). Sou nascido em Jundiaí, mas o sertão me tornou baiano pro resto da vida.

Em julho daquele ano, meus irmãos mais velhos, que viviam em São Paulo, foram passar as férias conosco. Levaram primos e amigos. Um montão de gente, pra alegria-mor de minha mãe. Ela adora receber, e bem, convidados, preparar isso e aquilo. Enfim…

Já nos últimos dias do pessoal por lá, rolou uma festinha de despedida. Ninguém, exceto meus irmãos, conhecia o sertão. Lembro de um dos amigos deles quase comer merda seca de cabra, crente que se tratava de uma frutinha típica (e, claro, sacaneado pelo resto).

Então, pra tornar a experiência na Bahia inesquecível, minha mãe chamou um trio para animar a noitada com forró. Forró do bom, genuíno e clássico – zabumba, triângulo e sanfona.

Os músicos, que no dia a dia trabalhavam na feira da cidade, apareceram na estica, com camisas de estampas vistosas, anelões brilhantes nos dedos, chapéus de cangaceiro e aquele cheiro forte de perfume.

Nada era fake nem artificialmente elaborado. Era espontâneo, natural. Da cultura local. Eles estavam ali por algo de que gostavam, que faziam sempre. Ou seja, tocar música.

Um negócio que permanece em minhas lembranças é que, depois de um tempo da festinha rolando, pessoas começaram a aparecer em casa. Gente que não havia sido convidada, que sequer conhecíamos. Cheguei a receber um casal na porta, que àquela altura já estava aberta. Eles vieram enfeitados para dançar forró. Lá era assim. Onde tinha música rolando, o povo ia dançar.

Tenho certeza que aquilo carimbou todos que foram para casa junto com meus irmãos. E me refiro à experiência por completo, além do nosso baile perfumado.

*Na foto, estou em cima de um famoso meteorito que repousava sozinho e soberano no terreno ao lado da minha escola

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