Uma temporada com Randy Rhoads

Imagens: Reprodução

Escrever uma matéria é sempre um processo de entrega. Dependendo da pauta, isso fica mais ou então menos intenso. A que originou essa bela capa da Guitar Player em 2010 talvez tenha sido a experiência mais surreal que tive, no sentido da conexão corpo-alma-assunto.

Randy Rhoads é uma patente do rock/heavy metal. Foi bom e carismático o suficiente para ajudar a transformar toda uma geração, e seguir transformando. O destino quis que sua trajetória, tal qual a própria vida, se encurtasse cedo demais. Morreu em um desastre aéreo há exatos 40 anos, em 19 de março de 1982. O guitarrista tinha 25 anos e deixou um curto, mas rico, legado – especialmente, os dois primeiros discos solo de Ozzy Osbourne (Blizzard of Ozz e Diary of a Madman), além do póstumo ao vivo de 1987, Tribute.

No final de 2009, mais ou menos, decidi prestar uma homenagem a ele e tudo o que representa. Teria que ser algo grande, à altura, e que incluísse depoimentos de músicos com que trabalhou. Para uma revista dedicada a guitarra e guitarristas, essa matéria caía como luva. Eu sabia que a tarefa estava longe de ser tranquila e rápida. Mas o desafio de uma pauta assim faz parte da maravilha que é o jornalismo musical.

Falei da ideia ao David Hepner, editor da Guitar Player, que topou. Seria um projeto para correr em paralelo às pautas cotidianas, por conta da demanda. Bem, com a carta branca na mão, me senti como se tivesse garantido o ticket de embarque para uma superviagem (e posso contar uma coisa? Foi bem mais que isso…).

Nunca escutei tanto os primeiros discos do Ozzy quanto naquela época. Mais do que pesquisar para a matéria, havia me envolvido pra valer. Tipo uma imersão. Esse é o tipo de trabalho que se apropria de sua vida sem que perceba. Randy Rhoads tornou-se uma companhia. A gente se trombava nos ambientes, almoçava juntos, trocava ideias, escutava música, e depois cada um voltava a sua realidade. A sensação era a de que ele estava ali, passando uma temporada em casa.

Estou falando de um percurso de meses. Já no meio de 2010, o David começou a me perguntar da matéria com mais insistência. Eu ainda tentava, a muito custo, arrancar uns depoimentos do Ozzy, claro! Porém, àquela altura, estava percebendo que teria de me conformar com a ausência do Madman (pelo menos, de forma exclusiva). Já havia se passado um bom tempo, e a coisa tinha que se encaminhar. Acertamos, então, um prazo final, de modo que a matéria saísse naquele ano e celebrasse Rhoads a partir dos 30 anos de Blizzard of Ozz.

Não consegui entrevistar todos que gostaria, mas pude conversar com protagonistas dessa história: os baixistas Bob Daisley, Rudy Sarzo e Kelly Garni, o baterista Lee Kerslake e o engenheiro de som/produtor Max Norman.

Entre setembro e outubro de 2010, concluí o processo: transcrevi as entrevistas, traduzi, selecionei trechos relevantes, escrevi o texto, acrescentei informações, busquei fotos. Apesar da frustração pela ausência do Ozzy, fiquei satisfeito com o volume de depoimentos que reuni. Foi legal revisitar com mais calma as entrevistas.

Max Norman, por exemplo, contou detalhes suculentos de Rhoads em estúdio: “Uma coisa que o Ozzy costumava me pedir era para manter as faixas-guia do Randy, porque ele também era sensacional na hora de improvisar solos. Alguns dos solos finais [nos discos] são a guia original que Randy gravou!”

Ouvi Lee Kerslake revelar uma falta de talento do guitarrista: “Ele era um jogador de tênis terrível! Era maravilhoso tocando guitarra, mas mal podia acertar uma bola. Costumava jogar a bolinha pra longe [risos]”. Já Kelly Garni, baixista fundador do Quiet Riot, ao lado de Rhoads, disse que o guitarrista estranhava a veneração do público por sua figura: “Ele não tinha ideia do quão bom era, pois sabia do quão melhor poderia ficar”.

Bob Daisley sobre uma vontade de Rhoads: “Se não tivesse morrido no desastre aéreo, ele não teria continuado com o Ozzy. Randy queria sair da banda. Talvez depois voltasse ao rock, mas naquela época ele queria dar um tempo do rock, pois estava muito ligado ao violão clássico”. Rudy Sarzo confirmou esse interesse: “Naquela época, o que ele realmente estava odiando era o fato de não tocar nada novo. Ficava tocando basicamente as mesmas músicas que vinha tocando há cerca de um ano e meio”.

Obtive depoimentos interessantes. Nem tudo coube na matéria. Esse é o caso do relato emocionante de Garni sobre a última vez que estiveram juntos. “Foi em Las Vegas (1981)”, disse-me. “Eu o encontrei um dia antes do show. Ele queria conhecer Vegas. Ficamos dando um giro pela cidade até as 7 da manhã, comendo, bebendo, conversando como os amigos que sempre fomos. Não pregamos os olhos. Finalmente, eu disse que tinha que ir trabalhar, então o deixei no hotel. Randy me arrumou ingresso para o show daquela noite. Fui lá, e Sharon Osbourne me recebeu como realeza. Disse que Randy falava sobre mim o tempo todo e que ela estava feliz em me conhecer. Depois da apresentação, tentei falar com Randy para me despedir, mas ele acabou engolido por um mar de fãs. Nos separamos. Me lembro do olhar de “sinto muito!” que ele me deu enquanto era empurrado para o ônibus para ir embora. Isso me deixa triste. Não deu para estar com ele uma última vez. Foi naquele momento que o perdi.”

A homenagem a Randy Rhoads ganhava forma. Eu ia me empolgando a cada parágrafo que escrevia. Um sentimento talvez parecido com o de alguém que acompanha a construção de sua casa tijolo a tijolo. Para mim, o grand final seria a hora em que finalmente recebesse a revista. Mas estava enganado quanto a isso…

Eis que o surreal aconteceu! Recebo a oferta de uma entrevista com ninguém menos que Ozzy Osbourne! Mal pude acreditar naquilo. A chance surgiu pela Sony Music, por conta do disco que ele lançaria em breve, o chato Scream. Pois é, quem disse que o destino não dá uma forcinha às causas perdidas dos jornalistas?

Não tive muito tempo para explorar o tema Randy Rhoads. Mesmo assim, pude garantir a cereja do bolo que preparava. Entre outras coisas, o Madman resumiu o significado daquele fatídico março de 1982: “Minha vida estava assim: meu pai havia morrido, fui mandado embora do Black Sabbath, minha primeira mulher [Thelma] divorciou-se de mim, encontrei Randy Rhoads e depois ele morreu. Atravessei altos e baixos por um bom tempo.”

Após enviar a matéria ao David Hepner e concluir minha missão, me bateu um vazio. Daquele que nos pega quando nos despedimos de alguém depois de passar um feriadão juntos. Senti falta da rotina. Nunca mais escutei aqueles álbuns do Ozzy da mesma maneira. RIP Randy Rhoads!

A Guitar Player com a matéria de capa especial sobre o Randy Rhoads saiu em novembro de 2010.