
Imagine se uma grande parcela do público fosse menos contaminada pelo mundo fantástico em torno de um músico. Talvez a quantidade de bizarrices com as quais nos deparemos seria tolerável – o oposto de que se vê.
Períodos de crise, como o atual, podem nos estimular a refletir diversos aspectos. Com a falta de novidades consistentes, a nostalgia virou a lente para tudo. Isso trouxe à tona uma ideia que sempre me acompanhou. Uma constatação que insisti em negligenciar ano após ano: o quão se dá voz e espaço a criaturas nojentas ou de atitudes nojentas.
Exemplos, não faltam: exigências das mais escrotas, caprichos excessivos, pau-no-cuzice, frescurites em demasia… Uma rápida pesquisa na história da música (não só do rock) te trará um monte de coisas assim.
O fio por trás de tudo é a arrogância, a ideia de rei/rainha na barriga. O pior é que se trata de algo bancado justamente por essa grande parcela de público. Gente que acha legal, que valoriza e sacramentam atitudes de merda.
A mídia tem papel fundamental nisso, pois é quem ilustra os artistas com cores fantásticas. Diversos fãs, apaixonados pelas músicas, embalam fácil nessa falsa realidade. Daí surge deus disso, deuses daquilo, estrelas, e todas essas besteiras. Lógico que a maioria de tais artistas gosta de se sentir acima dos outros e passa a alimentar a prima-dona interior.
O mainstream nunca foi lá grande entusiasta da arte, de fato. Sempre preferiu explorar o lado parquinho de diversões, criando os egos inflados e os infladores de egos. É um ciclo altamente bem-sucedido na engenharia da fortuna. O grande lance sempre esteve e estará na vaidade. Música, a real protagonista, prevalece somente aos que não caem nos contos de fama – mas essa é uma parcela que não rende vendas milionárias nem visualizações recordes.
Foto: Henrique Inglez de Souza