
O single de estreia do projeto recém-parido do Adrian Smith (Iron Maiden) e Richie Kotzen (solo, The Winery Dogs) é o tipo do trabalho que me deixa indignado. Você escuta ‘Taking my Chances’ mais de uma vez e acha o som bom pra caramba. Tem muita fibra. Une dois mundos próximos, por conta do estilo musical, mas de forma meio inusitada.
Tem uma fórmula manjada no caminho entre o heavy metal e o hard rock: bases fotogênicas, melodia vocal e refrãos fortes (as duas vozes deram supercerto juntas) e solos incríveis. Tudo na medida, sem exagero, sem egos chacoalhando lencinhos de vaidade.
Smith disse, em nota, que eles se completaram muito bem: “Ele é um guitarrista virtuoso, mas tem um ótimo senso de melodia – a coisa toda saiu bem natural.”
Não tiro uma vírgula do dito acima. Dos guitarristas virtualoides cujos ovos vêm sendo babados à exaustão nos últimos 30 anos, sempre achei o Kotzen um cara à parte. Tem predicados que são mais musicais do que semostração. Seus trabalhos consolidam-se à base de fibra, de alma, e não de atitudes circenses para mostrar o quão fodástico é na guitarra.
“Percebemos afinidades no rock clássico e no blues rock – nós viemos dessa pegada”, completou Kotzen. Realmente, há esse verniz no que cada um faz. No Iron Maiden, Smith traz esse som mais hard e menos heavy, imprime um sotaque mais próprio. Isso dá um caldo bom à massa composta por Dave Murray e Steve Harris (algo que Janick Gers não consegue, por exemplo).
Smith/Kotzen deve lançar mais músicas em 2021. Mais que chapas de profissão, eles são vizinhos e curtem o mesmo tipo de som. ‘Taking my Chances’ vem dessa química espontânea e nada burocrática.
E é isso que me deixa indignado. Você escuta um trampo desse, inspirado pacas, e lembra dos discos bocejantes, enjoativos, sem cara nem corpo, que o Maiden vem lançando desde 2006. ‘Taking my Chances’ traz a energia e a vibração que muitos, como eu, aguardam de um álbum do Iron Maiden e que não vem.