Acessórios demais, talento de menos

Tem horas que enche o saco esse monte de punheteitor em busca do timbre perfeito… só que o timbre dos outros, e não o seu! Saber tocar, afinar seu instrumento e ter musicalidade são os melhores efeitos que pode agregar a sua abordagem.

Toda vez que vejo esse povinho engordando uma pedaleira que só falta voar dá um desânimo, e sempre lembro de um negócio que o Sérgio Dias (esse aí da foto, que fiz em 2012), dos Mutantes, me falou numa das trocentas entrevistas que fizemos para a Guitar Player.

“Fizemos um talkbox para Beija-Me, Amor – eu tocava e cantava. Era um falante dentro de uma lata que dava aquele som. Tinha tanta coisa! A própria guitarra em si não tem igual. A impedância do captador da Regulus [sua famosa guitarra] é folheada a ouro. O Cláudio [César, irmão dele e construtor da guitarra] usou ouro para gerar uma gaiola de Faraday e cessar interferências. Para imaginar como era: se você ouvir o final de Panis et Circencis, notará que surge Danúbio Azul tocando, com qualidade. Quando fechei o wah-wah, entrou aquilo vindo do rádio. Deixamos gravando, e aí, em cima, incluímos o “passa a salada, por favor”. Foi um total acidente! No disco Tudo Foi Feito Pelo Sol também aconteceu isso. Tem um pastor pregando em Desanuviar.”

Ninguém precisa improvisar com gambiarra, como os pioneiros (tipo o Sérgio Dias). Mas saber criar com pouco é uma das maiores demonstrações de talento. Costumo desconfiar de músico que se entope de efeitos. Aí tem!