BNegão: sintonizando outras frequências

Felipe Diniz

No fim de semana em que BNegão & Seletores de Frequência se apresentam em Piracicaba (SP), bati um papo com o chefe da trupe. O grupo faz dois shows: um convencional e outro, peculiar (eles evocam os personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo).

A banda está cumprindo os últimos compromissos da carreira, já que encerrará as atividades – pelo menos, com BNegão. Foram 18 anos de uma estrada marcada por álbuns suculentos de groove e sonoridades.

O cantor carioca, um dos pilares do Planet Hemp, passará a se dedicar à carreira solo. E ele já começou, de fato. Lançou recentemente o single Injustiça (confira ao final da entrevista), e há outros engatilhados. Além disso, estão no prelo um EP, homenagem a Dorival Caymmi, Planet Hemp e seja lá o que mais surgir em sua imbatível sede de criar.

Os Seletores de Frequência são Pedro Selector (trompete), Marcos Serragrande (trombone), Paulão King (vocal), Nobru (baixo), Gilber T (guitarra), Robson Riva (bateria) e Sandro Lustosa (percussão). BNegão fica com os vocais principais e guitarra. Por ora, ele nos dá uma geral sobre tudo isso.

Com os Seletores de Frequência, você consolidou seu protagonismo. Então, por que acabar a banda, e não, por exemplo, só fazer uma pausa?
Somos muito amigos, e isso é ótimo! Mas tem coisas que quero fazer com outros instrumentos, outros pontos de vista de música. E tudo o que pretendia com os Seletores, que era música negra misturada com música de vanguarda e coisas diferentes, acho que já foi feito. Agora quero pisar mais ainda no acelerador, e tenho que fazer o lance sozinho.

Até a metade do ano devo lançar um EP com novidades. Os Seletores também lançarão um disco, instrumental [sem BNegão], que eu botei uma pilha danada pra rolar. Está muito bom!

Aproveitamos essa turnê final para tocar coisas que estarão em meu trabalho solo, coisas desse disco instrumental dos Seletores e músicas nossas. É um jeito de mostrar o que já passou, o que está rolando agora e o que rolará.

Ecletismo é uma marca do grupo, mas realmente Sítio do Pica-Pau Amarelo foi surpreendente.
Esse lance é uma viagem! Foi ideia de uma produtora, que realizou um festival em São Paulo com bandas alternativas tocando clássicos infantis. Sempre achei foda a trilha do Sítio do Pica-Pau: Gilberto Gil, Jorge Ben, Dorival Caymmi, João Bosco… Só pedrada!

Trabalhamos nossas versões, e tem sido muito classe! O show acabou pegando. Já fizemos, sei lá, umas 15 apresentações dessa. E é demais tocar para criança – tinha essa vontade. Só molecada, uma parada lúdica. É uma viagem demais, bem diferente [risos].

Esse trampo voltado ao público infantil é ótimo! Se conquistar e manter espaço nunca foi fácil, num momento em que isso está ainda mais complicado é fundamental que as novas gerações tenham contato com outros sons.
É uma forma de apresentar um monte de sons absurdos para a molecada. Essas músicas explodiram na minha cabeça quando eu era criança. Não fazia ideia. O primeiro contato que tive com aqueles músicos, com certeza, foi pela trilha. A primeira coisa que ouvi do Gilberto Gil foi Sítio do Pica-Pau Amarelo. Outra coisa de que gostava era o Vila Sésamo. Tinha um monte de músicas boas, também. É isso, vamos nessa, tentando levar umas coisas legais para a molecada!

Que direção tem te instigado seguir com a carreira solo?
Esse caminho que pensei lá atrás, quando comecei a fazer o primeiro disco dos Seletores, Enxugando Gelo (2003). Era para ser solo, só que no final vi que era uma banda. Por isso, dei o nome de Seletores de Frequência. Era uma banda, e não um projeto. Mas quero seguir na música negra universal. Gosto muito de graves, de várias paradas em que o grave comanda. Sempre curti coisas de baile funk, os clássicos, que dá para ouvir de casa – tremem a casa inteira! E nunca fiz isso.

Nós [Planet Hemp] começamos a fazer rap com banda no Brasil. Inauguramos essa parada. E banda não tem eletrônico, mas sinto falta disso. Adoro tocar com banda, só que quero explorar uns lances eletrônicos. E agora, no Brasil, está um momento bem foda, maravilhoso. É algo que toco bastante em minhas discotecagens, essa cena do bass, do grave brasileiro. Uma cena maravilhosa que está rolando aqui! É a música mais criativa, na atualidade, disparadamente!

Tenho um  monte de ideias na cabeça para contribuir com essa cena. Estou na pilha há um tempão: há vários sons que tenho que botar para fora, senão fico louco, crazy! [risos].

A ótica de Injustiça – sobre os contrastes que têm marcado o cotidiano sociopolítico brasileiro há décadas – já é mais que sabida. Também não valeria a pena dar um toque na população, que colabora para manter um quadro assim?
A ótica de Injustiça é basicamente essa, na verdade. Todas as minhas músicas são de mudança. Só que em umas falo exatamente sobre a parada e em outras, sobre o que as pessoas acreditam. No caso de A Verdadeira Dança do Patinho, são as coisas que fazem as pessoas dançarem.

Em Injustiça, também falo sobre questão social, mas de forma ultrairônica, do ponto de vista do próprio político: seu salário tem que aumentar porque não dá para viver com essa “merreca” que ele ganha. Ao mesmo tempo, a população tem que ficar tranquila, já que não dá para aumentar seu salário, pois o governo não aguentaria. As pessoas têm que fazer sua parte nessa contenção de crise, menos eles [os políticos]. Falo, ainda, sobre banqueiro.

Na verdade, essa é uma das músicas mais violentas que já fiz, de letra, só que com uma base bem tranquilinha. É uma música que fala sobre deuses – os políticos são “deuses” [risos], os banqueiros são “deuses”, e não se pode falar contra os caras.

Sairá um EP seu, e esse tem sido o novo esquema do mercado: singles e EPs, basicamente digitais. O formato álbum parece estar mesmo em franca decadência.
O EP sairá até a metade do ano. Tenho lançado alguns singles, e virão mais alguns. Será um EP porque há versões diferentes de sons meus e de outras pessoas. Tem uma versão para Cérebros Atômicos, do Ratos de Porão, que mostrei para eles e todos gostaram pra caralho. Fiquei bem feliz com isso, por ser uma releitura diferente.

Depois desse EP darei início a minha caminhada solo. A ideia é de, até o final do ano ou o começo de 2021, lançar um disco de inéditas. E a parada é essa: sempre penso como disco, mesmo. Se estou lançando singles e EP, é por ser a maneira como as músicas estão saindo. Tenho criado uma faixa de cada vez, diferentemente de um álbum, em que você faz tudo junto. Cada produção tem sido num lugar diferente, com pessoas diferentes.

Mas minha ideia é sempre lançar disco. Independentemente do formato vigente no mundo – pode ser bilhete de pombo-correio ou mensagem na garrafa – permanecerei lançando discos. Acho que a coisa fica completa. Os trabalhos dos Seletores têm isso: um conceito, uma sonoridade ou algo único. Gosto dessa coisa de ter o que dizer.

Sei lá, as pessoas estão lançando bastante singles hoje em dia. É a cultura do single. Acho legal, mas não acho “a” parada. Há quem viva só de single, então, não faria sentido lançar um disco inteiro. Mas para mim faz, e é assim que vai ser!

A decadência do formato álbum te sugere que tipo de contexto?
Sugere um tipo de contexto de uma sociedade fragmentada, até mentalmente fragmentada. Celulares, redes sociais, enfim, tudo fragmentado. Mas não irei me nivelar por baixo, sacou? Minha ideia sempre foi me nivelar pelo alto, e mesmo se só houver eu pensando assim no mundo, continuarei fazendo desse jeito.

Por falar em álbum, quais são as perspectivas para o Planet Hemp?
Estamos finalizando um disco de inéditas, depois de, sei lá, 20 anos. Deve sair até a metade do ano. Vamos ver se a gente segue abalando as estruturas geral! Este ano será bem corrido: turnê final dos Seletores, disco novo do Planet, meu novo EP, rodar o Brasil inteiro com esses shows. Enfim, coisas loucas aí! Muita coisa pra fazer. Vamos nessa!

*Entrevista originalmente postada em meu antigo blog (Riffs).