
A crise no jornalismo será como areia sendo despejada em saco sem fundo enquanto uma visão ampla não for posta em prática. É claro que há questões específicas, como a falta de emprego versus a necessidade de pagar contas. Mas a solução não está somente na economia do país melhorar e a oferta de vagas voltar a crescer. Às vezes, isso me soa como depositar esperança em conto de fadas.
O problema de nossa área não se limita a um período economicamente conturbado. Vai além, e vem de antes de a coisa toda azedar. A principal fonte do desmonte que nos atinge vem da revolução digital. Sim, da internet! Nem tudo se rearranjou definitivamente após a era do virtual dominar o planeta.
As revistas para as quais trabalhei ou com que colaborei se viram obrigadas a interromper suas edições impressas. A baixa procura nesse tipo de mídia sucumbiu às maravilhas oriundas de um notebook, tablet ou smartphone.
E não adianta ficar puto. Outras gerações surgiram e não têm aquela relação com o papel como, sei lá, eu tive. A praticidade, a impessoalidade, o desapego, a quantidade e a demanda do on-line, para a maioria, superam o velho (e delicioso) ritual de se folhear um livro, jornal, etc.
Agora, também tem coisas esquisitas. Um mistério, pra mim, sempre foi a razão pela qual os anunciantes evitam comprar espaços publicitários nos sites. Os banners dão uma goleada nos anúncios impressos, cujo mais próximo de tecnológico que chegam é com QR code. Um banner permite anunciar com vídeos, ter link direto para o site da empresa, enfim, aproxima o eventual cliente do produto. Mas não. Os anunciantes relutam em trilhar por aí, o que costuma comprometer diversos veículos.
Outro aspecto são os “profissionais” que têm ganhado cada vez mais espaço (sobre os quais escrevi recentemente). É uma gente despreparada, com atuação precária, porca e superficial. Além dos tais redatores web e ghostwriters, os queridinhos do mercado no momento. O jornalismo, assim, vai se desfazendo…
Mas aí chegamos ao ponto em que sugeri no início deste texto: é preciso uma visão ampla. Não dá pra ficar demonizando coisas como as quais falei aqui. Não irá resolver nada, pois o que está aí fora é um sintoma da tal roda da humanidade, que girou e insistimos em não admitir (ou não percebemos mesmo).
O jornalismo, da forma como o conhecemos, não existe mais. Faliu! Nossa área foi uma das que sofreram duramente os impactos da internet – tal qual o mercado fonográfico, por exemplo. É claro que o país voltar a se estabilizar e crescer economicamente importa. Porém, precisamos encontrar novas maneiras de fazer jornalismo.
Há uma massa considerável de público que consome conteúdo de outras maneiras. Ainda que funcione para grandes nomes midiáticos, abordagens como a do formato lide/desenvolvimento/conclusão, o jeito de tratar o assunto (e o próprio) e as relações veículo-leitor e veículo-publicidade estão gradualmente se tornando obsoletas. Pra mim, o real problema está aí.
Enquanto não focarmos energia na busca por novas plataformas, novos mecanismos e novas abordagens, continuaremos a padecer. Insistir na direção do que sempre deu certo, mas que agora está ruindo, é se empenhar em secar gelo.
Então, quais são essas tais novas maneiras de se fazer jornalismo? Eu juro que se tivesse a resposta (e que se houvesse essa resposta, pronta e definida), você não estaria lendo este artigo agora.