Inocentes: “O Brasil pode ser inspirador ou desanimador”, dispara Clemente

Murilo Amâncio

O novo trabalho do Inocentes é o EP Cidade Solidão. Lançado este mês, o material ganhou até uma versão em vinil de 7 polegadas pela gravadora Hearts Bleed Blue (HBB), na ocasião do Record Store Day.

Clemente Nascimento (vocal, guitarra), Anselmo Monstro (baixo), Ronaldo Passos (guitarra) e Nonô (bateria) não apresentavam um registro com inéditas há cerca de seis anos. O repertório tem cinco faixas, incluindo as regravações do clássico Escombros, do álbum Ruas (1996), e Terceira Guerra.

Conversamos com Clemente para uma geral no momento do Inocentes. A banda paulistana, surgida em 1981, prepara-se para ir pela primeira vez à Europa, onde faz shows na metade do ano.

Esse é o primeiro lançamento inédito desde Sob Controle. Em seis anos, o que mudou na banda?
A banda não mudou; evoluiu, como sempre. O que mudou foram o mercado e a forma de se consumir música. A cena mudou: não existe mais uma série de casas em que tocávamos há alguns anos, não precisamos mais fazer um álbum cheio, o vinil está de volta, com tudo… E os shows da banda estão cada vez mais incendiários!

Por que resolveram regravar Escombros?
Como disse, a maneira de se consumir música mudou. Não precisamos nos obrigar a compor 15 músicas, sendo que ninguém vai ouvir todas. Isso nos permite experiências. Pintaram três inéditas e, aí, pensamos “Vamos lançar”.

Escombros é uma música muito pedida em shows. Foi regravada pela banda alemã Rasta Knast. A versão original não nos deixava felizes, então por que não regravar? Já Terceira Guerra, fizemos para o tributo ao Fogo Cruzado – não entrou no vinil, mas está no EP digital.

Logo mais lançamos outro EP ou single, sem obrigações nem compromissos.

Para uma banda punk com a pegada do Inocentes, o dia a dia do Brasil deve ser uma fonte sempre renovável de inspiração, não?
O Brasil pode ser inspirador ou desanimador, depende do ponto de vista [risos]. Mas pra gente não mudou nada. Tem músicas nossas com 38 anos que servem para hoje em dia. Como não falamos só de política, inspiração não falta!

O EP soa meio vintage, mas inspirado. É impressão minha ou vocês encontraram um gás novo?
Estamos olhando para o passado e o usando como base para seguir ao futuro, sem saudosismos. A banda está energizada! Temos feito ótimos shows, e isso se refletiu nas composições. Uma garotada nova tem ido nos ver, e nesse momento em que o rock vem perdendo espaço! É preciso ter postura e disposição, e não se retrair. Fomos atrás de nossa essência, e ela tá aí!

Entre julho e agosto vocês tocam na Europa. Quando e como pintou a oportunidade?
Essa turnê na Europa demorou séculos! As bandas punks brasileiras têm muito prestigio por lá, principalmente as da primeira geração. Nós somos a que ainda não tinha ido, por uma série de fatores. Agora essa parceria com a HBB viabilizou várias coisas, uma delas essa viagem.

Pintou o convite para o festival Rebellion. Conheci Darren [Russell], o cara que criou o festival e que ofereceu condições bem bacanas para irmos. O pessoal da Finlândia viu que íamos e nos arrastou pra lá, também com boas condições. Pintaram outras datas na Inglaterra, além do Rebellion, e lá vamos nós! Demoramos para ir, mas estamos indo de uma maneira bem bacana e com muito prestigio.

Vocês têm bastante público no exterior?
A cena punk em 1981, quando surgiu o Inocentes, era mundial. As bandas brasileiras saíam direto no Maximum Rocknroll, fanzine da Califórnia sobre a cena mundial. Em 1984, saímos na coletânea alemã Life is a Joke e [a coletânea de 1982Grito Suburbano foi lançada na Alemanha, com o nome de Volks Grito.

Ou seja, as bandas da primeira geração são conhecidas na cena punk, e depois o documentário Botinada, feito pelo Gastão Moreira, acabou de pavimentar essa estrada. Saímos na capa da Maximum Rocknroll novamente, e a lenda continua! Eles estão ansiosos, esperando por nós, tanto quanto nós para irmos.

Ouça Donos das Ruas, uma das faixas do EP Cidade Solidão.

Veja abaixo a capa de Cidade Solidão.

Reprodução

*Entrevista originalmente postada em meu antigo blog (Riffs).