
Esta semana, para a Nação Zumbi, foi marcada pelo lançamento de uma música nova. Melhor Nem chegou às plataformas digitais na terça-feira (16). Além de fazer parte da trilha sonora da série Carcereiros, exibida pela TV Globo, a faixa antecipa o que virá no próximo disco da banda pernambucana.
Assinam a composição Dengue (baixo), Lúcio Maia (guitarra), Jorge Du Peixe (vocal) e Pupillo (bateria), que, apesar de ter saído do grupo, gravou a faixa. Além deles, completam a formação Toca Ogan (percussão) e Da Lua, Marcos Matias e Tom Rocha (alfaias).
O single teve produção da Nação Zumbi, com gravação comandada por Rodrigo Sanches, no Estúdio Rootsans (São Paulo), e mixagem de Daniel Ganjaman.
A seguir, Lúcio Maia fala sobre a novíssima Melhor Nem, que você ouve no player após o papo.
Melhor Nem tem uma levada de guitarra bem típica sua, incrementada até por um talkbox. Qual foi a receita para adorná-la?
O talkbox é um recurso que não usei tanto durante minha discografia. Não é algo fácil de se usar nem de timbrar. É pontual, e nessa música cabia. Melhor Nem tem uma pegada de mudança, inclusive reforço o riff com o talkbox.
Deixo sempre vários pedais à mão quando vou gravar, para ter a liberdade de imaginar o que pode caber em cada momento. O talkbox entrou assim nessa música. Ajo de acordo com a vibe. Melhor Nem tem uma levada meio jùjú music, tanto quanto de samba de roda e uma pitada de soul music.
Tem esse tipo de guitarra: som limpo, uma dobra com o baixo, que se chama pluck – um recurso do reggae que consiste em dobrar as notas do baixo na guitarra com o som abafado. O reggae usava isso como recurso para tentar ficar um pouco mais brilhante a linha do baixo. E funciona!
Seu equipamento de palco deu uma enxugada?
Varia muito, tudo vai depender do repertório. Quando tem uma pegada mais rock and roll, pra cima, para mim é mais fácil. O set fica menor, mesmo. Preciso de menos efeitos. Então, dá uma enxugada.
Mas varia. No repertório anterior ao que estamos tocando agora, eu tinha que levar bem mais coisas para a estrada. E tanto faz se vou andar com muita ou pouca coisa. Faz mais diferença para o roadie [risos].
O single tem uma levada contagiante e com ares menos “dark”, como nos álbuns da banda deste milênio.
Esse tipo de abordagem veio acontecendo ao longo dos anos. Talvez a partir do Fome de Tudo, de 2007, começamos a ficar mais abertos, melódica e harmonicamente. O Jorge também começou a atingir outro patamar dentro dos vocais.
Querendo ou não, cara, ele passou por uma superaprovação, que foi a questão de assumir os vocais. Foi uma coisa da noite para o dia! O Jorge não era vocalista de uma banda que, quando o Chico morreu, assumiu o posto. Ele tocava percussão com a gente, e de repente teve de cantar.
Então, foi tudo muito desafiador. Mas quando chegamos ao Fome de Tudo, ele alcançou um equilíbrio vocal bem mais maduro, mais bem resolvido. Hoje o considero um dos melhores cantores do Brasil e um dos melhores letristas, também – não porque é meu amigo e parceiro de banda!
Arrisco dizer que encontraram uma excelente receita para equilibrar o diálogo entre a banda atual com a da época do Chico Science.
Fomos tomando essa cara naturalmente. Uma questão de tempo e de irmos amadurecendo. Já estamos na casa dos 50 anos de idade, não temos mais aquele pique do passado. A tendência, também, é o som mudar.
Vamos angariando novos fãs, e alguns dos antigos torcem o nariz para a banda hoje. Mas se gostam do som de antes e não do atual, pra mim tanto faz, porque continuam gostando da gente [risos]. É só uma questão de época. Eu também tenho isso por muitos artistas… Tem quem prefira mais o início da carreira ou mais a fase da atual. Esse é o rumo natural de uma banda que vai chegando aos 30 anos de carreira, e sem parar.
Melhor Nem é a fase nova, porém, não é uma música nova. Fizemos essa em 2016, ainda com o Pupillo. Por conta do convite para o seriado da Globo, resgatamos essa música – e assim surgiu ainda a ideia de fazer um disco novo.
Aproveitamos e lançamos como single do projeto que está vindo aí, que estamos gravando com o Samuel Fraga na bateria. A Nação Zumbi tomou outro direcionamento, que também ficará superlegal. Essa é nossa nova diretriz: renovar em cima do que já estava sendo renovado [risos]!
O quanto terem feito um trabalho de releituras transformou a forma de vocês comporem?
Acho que não necessariamente o último disco que lançamos, Radiola NZ Vol. 1, tenha influenciado a forma como compomos. Aquele álbum foi um desafio, de pegar canções que já existiam e transformá-las em canções da Nação Zumbi. Quando nos apropriamos de uma música é nesse sentido: ela virar nossa, apesar de continuar sendo da autoria de quem a fez.
Porém, quando fazemos nossas músicas, pensamos de forma diferente. Temos outras diretrizes de tratamento e criação, apesar de ser tudo bem espontâneo. Nos sentamos e começamos a trabalhar. Cada um tem seu método de criar e participar. É mais um lance de levar em consideração o que o ouvido está captando e o coração, processando.
*Entrevista originalmente postada em meu antigo blog (Riffs).