
Uma biografia, de punho do próprio biografado, ou não, costuma trazer à tona novamente figuras de expressão. É mais ou menos o que está acontecendo com Augusto Licks, ex-guitarrista dos Engenheiros do Hawaii.
Em pré-venda pela editora Belas Letras, Contrapontos – Uma Biografia de Augusto Licks saiu das mãos de Fabricio Mazocco e Silvia Remaso. Para tantos, o livro resgata alguém que, de certa maneira, sumiu de cena há mais de duas décadas. Porém, o músico, embora tenha dado uma sumida mesmo, voltou à ativa nos últimos anos, com projetos mais discretos.
Atualmente, o guitarrista gaúcho está tocando um duo com seu irmão, José Rogério Licks. Sonoridade acústica e instrumentação até inusitada são os ingredientes do Licks Blues, que vem traçando um roteiro de datas por cidades do país. Nada tem a ver com o que fez nos Engenheiros do Hawaii nem com toda a estrutura showbiz de um grupo consagrado. Também não é exatamente um projeto de blues… O quê?! Sim, apesar do nome, a abordagem é outra.
O Licks Blues tem um formato bastante peculiar. Que tipo de possibilidades permite no palco?

Bom, começa que é um esforço, digamos, intercontinental. Só é possível graças à vinda ao Brasil do meu irmão, José Rogério, que mora na Alemanha há mais de 40 anos. Há o contraste sonoro de dois tipos diferentes de um mesmo instrumento, um violão clássico com cordas de nylon e um violão popular, de cordas de aço. Tem, também, a presença de um instrumento único, de sonoridade africana, o morgumel, criado pelo José Rogério (foto abaixo).
O recital oferece o contraste de duas individualidades musicais, cada uma construída em suas respectivas vivências. Estas se harmonizam no repertório e nas histórias que contamos no palco. Fui adolescente nos “anos de chumbo”, enquanto meu irmão era adolescente na época da bossa nova. Nos anos de chumbo, ele empreendeu uma longa viagem por toda a América Latina. Viveu no Chile, o que lhe fez personagem de um livro de Fernando Gabeira, e depois partiu para a Europa. Por trás de seu jeito calmo, há não apenas um grande músico, mas um grande sábio.
Pra quem te conhece dos Engenheiros do Hawaii, você volta à estrada com um quê de surpresa. O quanto o blues te edificou como músico?
Na época da banda, eu tocava predominantemente guitarras elétricas sólidas. Me aprofundei em recursos tecnológicos como forma de preencher de todas formas possíveis o espaço vazio que existia entre voz, baixo e bateria, naquele contexto anos 1980/1990.
Licks Blues é outro contexto, outra época. São outros motivos e estímulos. Apesar do nome, não é um show de blues. O blues é uma influência que adquiri na adolescência nos Estados Unidos. De lá pra cá permeou muita coisa que produzi musicalmente, inclusive nos Engenheiros, e antes, quando tocava com Nei Lisboa. Nesse recital, fazemos um passeio por vários gêneros, o que abrange blues, mas também barroco, anônimos e composições próprias.
Mas você ainda escuta blues? Quais são seus álbuns de cabeceira?
Atualmente não tenho como rotina ouvir álbuns. Prefiro ouvir coisas aleatoriamente e por poucos momentos, pois isso geralmente me leva a pegar um instrumento e explorar coisas que partem de mim mesmo. Quando mais jovem, mergulhei fundo no blues, especialmente no country blues. Era como conhecer a própria história norte-americana, marcada pelo processo de emancipação dos afrodescendentes e pelas questões sociais.
Acho que ouvi muita coisa, de Leadbelly a Blind Lemon Jefferson, Sonny Boy Williamson, e tantos outros. Fiquei pessoalmente tocado pela dupla Sonny Terry & Brownie McGhee, pois os vi pessoalmente, assim como Big Joe Turner. Sonny & Brownie é com certeza o álbum de blues que mais escutei. Produzido por John Mayall e com participações de Sugarcane Harris e Arlo Guthrie, filho do cancioneiro Woody Guthrie, que, junto com Pete Seeger, também muito me impressionou. São expressões musicais não africanas da história americana de lutas por direitos civis, precursores de Bob Dylan.
Claro que também ouvi o blues “branco” britânico, que bebia mais na fonte urbana, Chicago, de onde surgiu Mike Bloomfield, outro branco influente.
Quem os colocou num projeto, você ou seu irmão?
Na primeira apresentação que fizemos juntos, era um recital solo do Rogério com um “convidado surpresa” – que era eu. Já ali o Rogério adotou a expressão Licks Blues como título do programa. Ele identificou no blues um elo musical comum entre nós.
Como são os shows, ou recitais?
Chamamos de recital para diferenciar de apresentações em locais barulhentos, como bares ou restaurantes. O que oferecemos é mais bem aproveitado quando há mais atenção e menos barulho, como num teatro, auditório ou outro espaço cultural. É uma apresentação predominantemente instrumental, mas não ficamos apenas despejando músicas na plateia. Conversamos e contamos histórias que ilustram as músicas ou são ilustradas por elas. Isso vem de longe: no início dos 1980, eu e Nei Lisboa usávamos um formato semelhante num show só de blues, que se chamava… Só Blues, já sob influência daquilo que eu tinha visto de Sonny & Brownie.
Você sente certa assombração dos Engenheiros quando pisa no palco, mesmo com um projeto tão pitoresco como o Licks Blues?
Pelo contrário! Os fãs de Engenheiros que assistiram ao Licks Blues talvez tenham se surpreendido positivamente. Os aplausos e pedidos de bis sempre foram espontâneos e efusivos, nada protocolares. Alguns até nos trouxeram presentes.
Na primeira vez em que tocamos, 2017, o que de certa forma me “assombrava” era a expectativa por novamente dividir palco em um show, depois de décadas ausente. Mas isso se dissipou no momento em que entrei e começamos a tocar. Ali era uma experiência, um teste, que acabou se afirmando como uma certeza – a de que é muito bom tocarmos juntos.
Acaba de sair uma biografia sobre sua carreira, ao que parece, com seu aval. O livro foi fiel nos detalhes?
Escrever um livro é liberdade de expressão. Não faz sentido alguém dar aval nem proibir. Claro que se usa esse clichê “biografia não autorizada” como técnica para vender mais – muitos se sentem mais atraídos quando há algum componente de “tititi” na embalagem. Obviamente, quem escreve assume responsabilidade pelo que escreve.
É preciso deixar claro que não é uma autobiografia. Não fui eu que escrevi o livro e não recebo nenhum centavo por ele. Quando soube que iriam fazer minha biografia, sugeri que ouvissem o que outras pessoas teriam a dizer, para não cair numas de ser “o que o Augusto tem a dizer”. Na vida e na música, sempre me ocupei de fazer coisas, não de falar que as fiz. Falar de mim, cabe a outros, não a mim mesmo.
Dito isso, acredito que os leitores encontrarão assuntos interessantes, pois os autores dedicaram quase 8 anos a buscar informações e a entrevistar dezenas de pessoas. Talvez a maior dificuldade deles tenha sido selecionar o que entraria no livro e o que teria de ser sacrificado, dado o volume de conteúdo que acumularam – coisas que nem eu sabia, e isso já considero um mérito.
Qual é a sensação de ter a vida, de certa forma, aberta para outras pessoas?
Fico feliz que tenham se disposto a contar minha história. Acredito que conta, também, um pouco da história de outras pessoas e de contextos históricos que ainda outras pessoas mais viveram. Coisas que merecem ser conhecidos. A pluralidade de fontes faz desse livro uma leitura bem rica, melhor do que se eu o tivesse escrito.
Você recebeu feedback sobre a biografia de algum de seus ex-colegas de banda? Acha que o livro irá mexer em vespeiro?
Minha impressão é a de que os autores se empenharam ao máximo em esclarecer mesmo os acontecimentos polêmicos, mas ouvindo todos os lados, em vez de se limitar ao que ouviram de mim. Entrevistaram muita gente. O jornalista Alexandre Lucchese já tinha procurado esse equilíbrio no livro que escreveu sobre a banda [Infinita Highway: Uma Carona com os Engenheiros do Hawaii], apenas não teve de minha parte tanta informação. Ainda assim, a pequena entrevista que fizemos foi boa e teve o efeito de me deixar mais confortável com entrevistas em geral, coisa que eu geralmente evitava.
Projeto de blues, biografia na praça… Podemos considerar que o Augusto Licks retomou a estrada efetivamente?
Olha, já me sinto na estrada há alguns anos, com a palestra interativa Do Quarto Para o Mundo, que para mim é uma experiência formidável. Por ter pego o apelido workshop, talvez muitos pensem que se trata de uma aula técnica, de ensinar a tocar guitarra, etc. É uma tarde inteira em que conversamos sobre vários assuntos, nem todos diretamente relacionados à música, e com profundidade, coisa que não é possível por meio da internet.
Como aguentou ficar longe da vida profissional de músico?
Eu me afastei foi do mainstream, da rotina profissional de shows, divulgação, etc. Não tinha opção: era o que me restava a fazer depois de minha saída da banda, pois uma experiência tão intensa como os anos Gessinger-Licks-Maltz inevitavelmente iria respingar em qualquer coisa que fizesse a partir de então. E como voltar à banda nunca foi uma opção, então era preciso mesmo dar tempo ao tempo, me distanciando.
Você cogita lançar um álbum com seu irmão ou de outra maneira?
Nunca cogitamos nada, e o próprio recital surgiu por um ímpeto afetivo de dois irmãos, sem nenhum plano profissional. Para nossa surpresa e felicidade, as apresentações atraíram pessoas bem bacanas, que se ofereceram para ajudar de uma forma ou de outra, por puro idealismo. A primeira apresentação, aliás, foi toda registrada em DVD, gentileza de um fã, o Fernando Estigarribia, e as imagens estão nos vídeos de divulgação do Licks Blues nas plataformas digitais. O violão que utilizei no Rio Grande do Sul foi gentilmente emprestado pelo Márcio Flores.
Esse mesmo espírito animou produtores a viabilizar que o recital fosse apresentado no centro do país. Douglas Sad e Pedro Brum estão organizando apresentações no Rio de Janeiro e em Juiz de Fora. Em Brasília, o Daniel Reis, excelente guitarrista de uma banda cover de Engenheiros, está empenhado em nos levar para lá.
Não saberia dizer sobre um álbum de estúdio. Temos facilidades para isso, mas o aspecto “ao vivo”, por enquanto, fala mais alto. Não descarto a possibilidade de disco ao vivo, até porque há registros em vídeo das apresentações de 2018.
Qual é a sensação de encarar a música em 2019, com crise, hegemonia do streaming e a extinção do formato álbum?
Sobre crise não vou falar, daria uma entrevista inteira, mas são os tempos de hoje, e tempos futuros também deverão ser diferentes. Fato é que a maneira de ouvir música mudou e continua mudando. As gerações que no passado consumiram discos e fitas talvez sintam falta daqueles formatos, o que é natural. Por sua vez, as gerações mais recentes cresceram habituadas ao multitask.
Ainda usufruímos da oportunidade de tocar em espaços físicos reais, interagindo com uma plateia de pessoas próximas. Valorizamos isso. Mas nas novas gerações esse valor é relativo, ocupadas que estão com espaços virtuais. Acredito que num futuro próximo serão comuns espaços de realidade virtual em que as pessoas se sentirão dentro de um ambiente de plateia para ver e ouvir shows. Já existe, inclusive, tecnologia para esse tipo de coisa.
Costumo citar o filme Jogador N° 1 como um indicativo dessa tendência, mesmo que daqui a 10 ou 15 anos não aconteça nenhum apocalipse nem a sofisticação que o enredo do filme exibe. Pensar uma coisa assim é aterrorizante para quem entre nós preza a experiência real de ir a um show. Porém, para os mais jovens, poderá ser apenas… um novo aplicativo. Afinal a maioria já está viciada em drogas eletrônicas mesmo. Não tem volta, e quem vai se atrever a por limites nesse tipo de consumo, já que são drogas legalizadas?
Para nós, que vivemos o agora, mas também já vivemos o antes, resta aproveitar enquanto o ao vivo ainda existe, antes que os espaços físicos comecem a fechar e shows de verdade sejam substituídos por algo como Netflix.

