Murilo Olivero

Marcão Britto ajudou a escrever o rock nacional dos anos 1990 e 2000, com o Charlie Brown Jr. Em 2013, após as trágicas mortes de Chorão e Champignon, e o consequente fim da banda santista, o guitarrista se viu sem rumo.

Aos poucos, porém, as coisas retomaram os trilhos e uma nova jornada se desenhou, com a Bula. A estreia do grupo veio com o registro Não Estamos Sozinhos (2014). Vieram diversos shows, incluindo no Lollapalooza Brasil 2015 e no Espaço das Américas, o qual rendeu o lançamento de Ao Vivo no Espaço das Américas (2017).

O single Diamantes no Céu – A Guerra e a Paz iniciou 2019 trazendo o anúncio de um próximo álbum de inéditas. O intitulado Realidade Placebo deve sair no dia 12 de abril, com 18 faixas. Conforme me contou Marcão, até lá, mais dois singles virão à tona. Ao lado do guitarrista e vocalista estão Pinguim Ruas (bateria), Lena Papini (baixo) e André Freitas (guitarra).

E não foi só isso. O tributo ao Charlie Brown Jr. Tâmo Aí Na Atividade deverá viajar o país este ano. No último 25 de janeiro, houve o show inaugural, em São Paulo (Vale do Anhangabaú). O evento contou com convidados e veio rodeado de polêmica – dias antes, Thiago Castanho, ex-guitarrista da banda santista, rebateu declarações sobre sua ausência dadas por Alexandre Abrão, filho de Chorão e um dos organizadores do projeto.

Conversei com o Marcão sobre estes assuntos. Leia a seguir, e não perca o clipe de Diamantes no Céu – A Guerra e a Paz após o bate-papo! A música tem pegada envolvente, letra forte e personalidade. Nos acende a expectativa positiva de um tremendo álbum de rock.

O primeiro disco da Bula tem bastante de Charlie Brown Jr. Essa será a linha de Realidade Placebo?
O segundo disco é mais eclético. Seguiu o rito normal de toda banda: tocamos ao vivo e tivemos um feedback do público para gravar e refinar os arranjos. Hoje temos duas guitarras, então, teve uma parte mais voltada para isso também.

O feedback dos shows foi bem importante. Diamantes no Céu é uma música que a galera gosta bastante nas apresentações. Por isso, escolhemos para ser a música de lançamento do novo trabalho. Traz, sim, um DNA muito forte meu, afinal de contas, também fui um dos criadores do DNA do Charlie Brown Jr. Toquei por muito tempo na banda, desde o início, em 1992, e a construção da sonoridade tem uma identidade forte nas guitarras.

Mas as demais faixas de Realidade Placebo têm diversas facetas. O disco transita por vários estilos. É claro que há uma unidade, mas tivemos essa liberdade e tempo para refinar as ideias.

A Bula levou quase cinco anos para ter seu segundo disco de inéditas. Esse ritmo menos intenso em relação a lançamentos inéditos é proposital?
Queríamos lançar um disco no formato álbum cheio, tanto é que [Realidade Placebo] tem 18 faixas. Isso não é mais muito comum hoje em dia. Além disso, é importante ter um videoclipe, o que, no final das contas, toma certo tempo. Estamos produzindo, há uma produção intensa.

Esperamos fazer bem mais shows este ano, continuar tendo essa experiência com a galera, e seguir compondo. Mas não existe uma fórmula fixa. Pode ser que nos próximos trabalhos resolvamos soltar mais singles do que um CD inteiro. É que eu, particularmente, ainda sou fã do trabalho cheio. Sei que o mercado mudou bastante, porém, foi proposital e pelo capricho que tivemos de gravar e de se preparar para tudo.

Como tem sido reconstruir sua carreira nestes últimos anos, pós-Charlie Brown Jr.?
Tenho tido uma rotina bastante intensa na música. Entre o primeiro e o segundo discos da Bula, participei do DVD acústico do Raimundos [Raimundos Acústico, de 2017] – gravei o show inteiro com eles. E lançamos o ao vivo da Bula, Ao Vivo no Espaço das Américas. Está sendo um período de bastante atividade e shows, e isso é ótimo!

A época pós-Charlie Brown Jr., realmente, foi muito difícil. Foi um período em que perdi completamente o chão – ter perdido os caras de forma trágica, um depois do outro, tudo mexeu bastante comigo. Me fez reavaliar toda minha visão de vida. Me levou a dar mais valor, porque me mostrou o quanto tudo pode acabar de uma hora para a outra e também o quanto nossa vida é frágil. A vida é tão breve, então temos que aproveitá-la da melhor forma.

A música é o que me trouxe até aqui e foi o que me salvou. Acaba sendo uma grande válvula de escape para várias coisas que sinto, para muito do que passei. Me dá a oportunidade de botar isso pra fora e transformar em composições. Tem funcionado dessa forma, pra mim.

Sobre a polêmica gerada pela tal “volta do Charlie Brown Jr.”, o que pode falar a respeito?
Na verdade, não é bem uma volta, né? Seria a volta de um show comemorativo, de celebração em memória da banda, a tudo o que foi feito, ao Chorão e ao Champignon. Essa seria a volta. A banda não retomaria suas atividades, produzindo material, gravando disco com outro vocalista no lugar do Chorão. Isso jamais vai acontecer porque o Charlie Brown Jr. foi extinto em 2013. Assim que o Chorão morreu, encerramos a banda imediatamente. O Charlie Brown será mantido com todo o respeito no lugar em que sempre esteve.

Particularmente, acho isso [show de tributo] superpositivo. É sempre legal poder reencontrar os caras para tocarmos juntos, matar um pouco a saudade. Inclusive, já havíamos feito shows assim duas vezes, em 2014 e 2016. Então, não entendi muito bem toda essa polêmica que aconteceu.

A ideia seria levar o show que rolou em São Paulo para outras capitais do Brasil. Até onde sei, todos os integrantes tinham sido confirmados, entendeu? Inclusive, recebi mensagens deles, pedindo repertório e tudo o mais. Foi uma surpresa bem grande essa polêmica – em minha opinião, desnecessária, porque Charlie Brown Jr. é positividade. Pra mim, é sempre motivo de orgulho estar com eles [ex-integrantes], fazendo um som.

Posso dizer: pra quem nos viu no Vale do Anhangabaú, no aniversário de São Paulo, é um show interativo. O Chorão “canta” várias músicas com a galera, do telão. É superlegal, a experiência mais próxima possível do que era uma apresentação do grupo. Quem foi curtiu bastante. Acho isso muito positivo e bacana. Mas temos que respeitar as pessoas que não querem participar.

Apesar da polêmica, haverá outras datas do tributo ao Charlie Brown Jr. pelo pais, ou o projeto foi descartado?
Não está descartado, não! O Tâmo Aí Na Atividade deve rolar em outras cidades também. O projeto segue de pé.

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