Digão fala da turnê com Fred e do aniversário de ‘Raimundos’

Denis Ono

Em 2019, completam-se 25 anos desde que os Raimundos estouraram no país com seu disco de estreia. Lançado em abril de 1994, o material foi produzido por Carlos Eduardo Miranda e a banda – Digão (guitarra, vocal), Rodolfo Abrantes (vocal), Canisso (baixo, vocal) e Fred (bateria). Vieram saraivadas como Puteiro em João PessoaPalhas do CoqueiroNega JuremaBê a BáRapante e Selim.

Raimundos chegou ao mercado pelo Banguela Records, extinto selo criado por integrantes dos Titãs e o próprio Miranda. A paulada no som e as letras desbocadas e maliciosas, sem contar o certo quê nordestino na pegada, foram a receita do sucesso. O álbum inteiro sagrou-se um potente clássico do rock nacional.

Por essas e por outras, nada mais merecido do que vibrar com uma turnê especial. Digão, Canisso, Marquim (guitarra) e Caio pegam a estrada com um show comemorativo. A data inicial será neste sábado (26), em Belo Horizonte, pelo Festival Planeta Brasil.

Além de executarem o repertório de Raimundos na íntegra, os caras contarão com Fred, baterista original do grupo. Os detalhes dessa novidade você fica sabendo na entrevista que fiz com Digão.

Como nasceu a turnê de celebração dos 25 anos de Raimundos?
Foi uma ideia do meu empresário, Denis Porto, que achei maravilhosa. É um momento interessante, até porque são mesmo os 25 anos do primeiro disco. É um álbum bem icônico, considerado por muitos o melhor dos Raimundos. E quando ele sugeriu de chamar o Fred, achei do caralho!

O Fred é nosso irmão, nunca deixou de ser. Desde que saiu da banda, nunca perdemos contato. Ele já tocou conosco quando o Caio teve problemas pessoais sérios. Jamais cortamos relação. A amizade sempre esteve presente, que é o mais importante.

Pra gente está sendo bem legal, o feedback está maravilhoso. Tenho recebido diversas mensagens no Instagram da galera falando das cidades que não podem ficar sem esse show. Já temos algumas datas, começando pelo Planeta Brasil agora, dia 26 de janeiro. Vai ser muito legal!

Qual será a formação da banda?
O show será dividido em três partes: abrimos com a formação atual, tocando só músicas recentes, dessa formação. Isso deve dar mais ou menos meia hora de apresentação. Depois vem o show de 25 anos, em que tocamos o primeiro CD na íntegra, com o Fred na bateria e o Marquim na guitarra. Não seremos um trio, o Marquim tocará guitarra e eu estarei livre, só pra ficar cantando. Haverá duas baterias no palco!

Após tocarmos Selim, que é a última música do primeiro CD, o Caio volta para a bateria dele e então encerramos com mais meia hora, 40 minutos, só com os grandes hits dos Raimundos. Cara, vai ser espetacular! Estamos com uma expectativa maravilhosa, e imagine: duas baterias no palco e aquela vibe. Vai ser demais!

Isso rende até um álbum ao vivo, hein? Vocês chegaram a cogitar convidar o Rodolfo, ou nem pensaram nisso?
Desde que o Rodolfo saiu dos Raimundos, e quando resolvemos seguir em frente, eu nunca cogitei nada. É uma decisão dele. Todo mundo sabe da história, o que ele falou… enfim! Nunca cogitei. Realmente estou bem distante disso. Para mim, já foi. Quem ama os Raimundos está nos Raimundos. Não iremos perder nosso tempo com quem não quer ser agradado.

Em nenhum momento cogitei, porque acho que não tem mais nada a ver – por ele! Não somos nós que ficamos com mágoa. O problema é ele mesmo – o Rodolfo tem que resolver seu problema com o mundo. Espero que esteja bem, mas é isso, segue o barco!

O mais engraçado é que de todas as mensagens que recebemos, se eu fosse colocar em porcentagem, acho que 1% ou 2% tocou nesse assunto. Praticamente ninguém falou disso. As pessoas ficaram mais felizes que haverá a turnê com o Fred do que se vamos trazer o Rodolfo de volta. Acho isso bastante positivo.

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Agora queria falar sobre o disco. Qual foi a grande surpresa com Raimundos?
Minha maior surpresa foi Selim ter virado uma febre nacional e catapultado os Raimundos para o mainstream. Tínhamos um disco com várias músicas fodas, e a que nos catapultou foi Selim. Realmente foi um espanto bem grande! Graças a Deus deu certo e conquistamos nosso espaço – é isso o que importa.

O disco contou com participações bem especiais, como a do João Gordo e de integrantes dos Titãs (Nando Reis, Paulo Miklos, Branco Mello e Sérgio Britto).
Cara, eu tenho uma gratidão profunda e eterna pelos Titãs. Os caras foram muito fodas! Deram um apoio crucial, aprendemos bastante. Sempre gostamos dos backing vocals dos Titãs, e tê-los ali, fazendo backing vocais em nosso disco, e o Nando tocando viola em Puteiro em João Pessoa, engrandeceu o trabalho. Sou muito grato a eles. Teve também o João Gordo participando de MMs… Foi demais! Só tenho a agradecer. Foi um sonho, aquilo!

Raimundos me sugere uma fotografia do que vocês já vinham conquistando antes de gravá-lo. Na época, já estavam ganhando expressão, e de maneira genuína.
Nós reformamos os Raimundos em 1992 e, em 1993, começamos a participar daqueles projetos Super Demo, no Rio. Até achávamos que a coisa ia acontecer pelo Rio de Janeiro. Chegamos a ir a uma grande gravadora lá, mas os caras vieram com aquela conversa de mexer no som, na dicção… enfim, tudo o que havíamos combinado de não aceitar.

Os Titãs vieram no momento certo. Deixaram os Raimundos ser os Raimundos, o que foi bem importante. Mas, de fato, desde 1993 já vínhamos galgando algumas conquistas. Estava tudo muito na hora certa.

O repertório do disco reproduz o dos shows, ou vocês prepararam algo nas gravações?
É exatamente o que estávamos tocando. Claro que para o disco demos uma desacelerada nos andamentos, para não perdermos o groove. Mas basicamente Raimundos estava pronto. Mexemos em pouca coisa: acrescentamos as violas do Nando Reis, os backing vocals… Já sabíamos o que queríamos, e as músicas eram todas as que tínhamos. Não havia nada a mais, que não usamos. Só tínhamos aquelas músicas, e pronto!

Esse álbum também é um dos grandes trabalhos de produção do Miranda. Ele deu uma puta mão, não?
O Miranda foi a peça-chave disso tudo. Foi nosso elo para tudo dar certo. Ele chegou ao estúdio e falou “bah, velho, toca aí, faz como vocês são”, e só lapidou, colocou mais pilha. Não quis mudar nada. Disse “é isso!”, e lapidamos juntos. Ele acabou mexendo mais no Só no Forévis [1999] do que nesse primeiro, mas foi a peça-chave que fez acontecer.

Hoje, 25 anos depois, como o Digão vê o amadurecimento de Raimundos?
Nossa, esse disco é muito visceral! Muito, muito. Uma coisa que acho que não podemos perder, ao vivo, é exatamente isso: a visceralidade que esse disco tem. Não enfraquecemos com o amadurecimento. Queremos tocar Raimundos exatamente como é, no pique dele. Acho que amadurecemos ficando mais jovens [risos]. Espero que a gente reproduza essa energia em cima do palco