O jornalista-fã, você já deve ter visto alguns. Tem até bastante, principalmente na editoria cultural. É aquele boboca cujo principal objetivo é pegar autógrafos e tirar fotos com os artistas para postar nas redes sociais. Nada contra a pedir um autógrafo ou tirar foto.

O problema está na postura, na ansiedade adolescente de querer se aparecer para os amigos em busca de curtidas e bajulação. É o que lesa a essência dessa atividade profissional. Acaba colaborando para criar resistência dos entrevistados. Dependendo do grau de popularidade do músico, o cara fica com pé atrás para atender à imprensa. Sabe, pois, que nessa área há muito fã disfarçado de jornalista que só irá lhe custar minutos preciosos de tempo.

Como editor de três revistas de música, tive de lidar com algumas peças assim. A mão de obra da coisa resumia-se a ter que encarar textos fracos: resenhas de shows piegas ao extremo e entrevistas repletas de diversas perguntinhas puxa-saco, superficiais.

Lembro da vez em que recebi a resenha de um show de Paul McCartney no Brasil, cujo título era algo assim: “Um beatle caminhou entre nós”. De cara, dava para perceber que o tom das linhas seguintes seria a de um fã eufórico e grudento, babando aos pés do ídolo endeusado. E isso não é uma resenha jornalística. Afinal, olhar crítico, ali, foi algo que passou longe até mesmo dos comentários menos efusivos.

No jornalismo cultural, é pretensão e estupidez imaginar que boa parte dos profissionais não tem ídolos e não foi influenciada a seguir por esse caminho sem influência da paixão. Acho até que é importante ser fã de música, por exemplo, e curtir e detestar várias bandas, conhecer detalhes, ter manias. Trata-se de uma bagagem fundamental. Agora, tão vital quanto é saber se despir do fã na hora de trabalhar.

Há quem sue mais que outros para incorporar essa isenção. Tem gente com imensa dificuldade de observar pontos negativos em seus ídolos e colocá-los no texto. Pior: tais aspectos “ruins”, se relevantes, rendem perguntas interessantes em uma entrevista. Ou mesmo em resenhas, dão um contraponto construtivo à análise. Porém, o jornalista-fã os evita, pega leve com seu queridinho, descartando a chance de uma pauta realmente boa.

Naquele caso do Paul McCartney, imagine se haveria pisadas de bola em um show de um astro assim para o cara que cobriu. Certamente houve detalhes negativos, mas a paixonite de tiete o impediu de apontá-los. Deu no que deu: um texto açucarado demais, enjoativo e sem apelo.

Se despir do fã é um exercício constante. Todos têm habilidade para se saírem bem, e o resultado costuma ser ótimo. Como saber se está funcionando? Bem, para tanto, vale a pena ler entrevistas e matérias de outros jornalistas (competentes). O clichê permanece eficiente: busque referências!

Nos últimos anos, com o alagamento promovido pela internet, áreas como o jornalismo enfraqueceram-se. Os veículos, tropeçando nas próprias pernas, entraram em crise. Para aliviar a pressão, diversos passaram a dar espaço a fãs para cuidarem de seus conteúdos.

A razão é simples: são uma massa barata e facilmente manejável. Ou seja, eles te garantem material e as empresas dão o pão e circo que eles mais gostam – a possibilidade de espalhar pelas redes sociais suas fotos e itens autografados para conquistarem curtidas e bajulação.

Dessa maneira, o jornalista-fã contribui para afastar o leitor, figura tão difícil de se manter, e o entrevistado, que já anda sem saco para perder tempo com babação. Cria, aliás, um novo séquito, o de bobalhões consumidores de superficialismos. Já reparou que a editoria do entretenimento, hoje, sobrevive às custas de fofocas e de outras futilidades sobre celebridades? Não é por acaso.

Nosso otimismo em relação ao jornalismo cultural, aquele com conteúdo e isenção, tem a árdua tarefa de superar adversidades criadas, também, no próprio quintal. E você, que tipo de profissional quer ser?

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