
O Barão Vermelho tem uma grande competência para se reinventar. Já enfrentou mudanças significativas em seu layout e, mesmo assim, soube se reajustar com sabedoria. Não bastasse o desligamento de Frejat, a banda perdeu Rodrigo Santos, ambos em 2017. Sofreu um baque que estremeceu uma estrutura consolidada desde 1992.
Com Rodrigo Suricato nos vocais e na guitarra e o baixista Márcio Alencar (músico contratado), o quinteto caiu na estrada para sua atual turnê, batizada #BarãoPraSempre. O que se tem visto é uma potência nos palcos e uma química muito boa, musical e carismática. Ou seja, a nova formação funcionou!
Se nos nortearmos pelo que tem rendido as apresentações, o próximo disco de inéditas, que está sendo preparado, promete agradar.
Aproveitei a passagem de som para o show do Barão Vermelho em Piracicaba e conversei com Suricato e Fernando Magalhães, uma figura ímpar da guitarra brasileira.
Se havia alguma apreensão em relação à banda com Suricato, acho que já está mais do que claro que o público gostou, certo?
Fernando: O Suricato sempre foi muito fã de Barão. Já no primeiro ensaio, tocamos 19 músicas direto, com ele cantando tudo, tocando todos os solos do Frejat, e até os meus. Sabia tudo [risos]! Foi bacana pra caramba!
É um grande músico e se adaptou de forma natural. Apesar de ser mais novo, seu gosto musical é o mesmo que o nosso. Foi um casamento bacana, e para o público está se tornando uma revelação. É realmente uma prova de que ninguém é insubstituível na vida… Na verdade, ele não está substituindo o Frejat. É uma nova fase. As coisas podem mudar e ficar legais também, e a aceitação do público está muito bacana.
Suricato: Esse é o tipo de jogo que se ganha no campo. Foi assim show a show, e jamais considerei a hipótese de dar errado. Os fãs são muito carinhosos, bem como a banda me acolheram como irmão mais novo. Faltava gasolina pro Barão. Acho que consigo entregar técnica e emocionalmente o que precisam. Sou feliz ali. Também há uma geração que não conheça a banda.
O legal é que o Suricato tem o estilo do Barão, mas sem soar Cazuza ou Frejat.
Fernando: É, e ele está trazendo algo bonito para a banda, porque toca muito violão, muita guitarra, canta bem e compõe muito. É um ganhador de Grammy!

O que de melhor funcionou na química Suricato/Barão?
Fernando: Não mudamos o tom, e ele se encaixou colocando a voz de forma natural. Realmente, tem um estilo de tocar diferente do Frejat. Os dois são grandes guitarristas, com uma criatividade enorme, e está sendo ótimo.
Meu entrosamento com ele também foi muito bom. A pessoa tem que vir para cá e se sentir em casa, e acho que isso aconteceu. Principalmente eu, sendo guitarrista, deixei-o bem à vontade para fazer as coisas que gosta.
Suricato: Além do lado pessoal (não trabalho com quem não me dou bem), tenho familiaridade com tudo que eles escutam e gostam. Mesmo sendo bem mais novo, viemos da mesma jukebox.
Faço questão que sejam os protagonistas da própria história. Tenho profundo respeito por todos e quero que recebam todo o carinho necessário do público. Minha maneira de conduzir o show é espontânea, e isso faz de cada noite especial. Acho que não levei nada de tão especial para o Barão, além de um espelho para refletir o que eles já são.
Fernando, quando você entrou no Barão teve algum perrengue?
Não, não. Quando entrei, era músico convidado, então era mais limitado. O guitarrista, mesmo, era o Frejat. Fui conquistando um espaço naturalmente. O Frejat fala no documentário [Por Que a Gente é Assim?] que não consegue mais ver a guitarra do Barão sem mim. Achei muito bonito ele falar aquilo. Fiquei emocionado, porque fomos compondo uma coisa juntos. Quando você consegue fazer isso, é muito bonito!
As trocas de integrantes no Barão têm algo em comum: espaço criativo. É um problema espaço criativo na banda?
Fernando: Não. Como nunca saí, acho curioso isso. É claro que banda é aquele coisa: uma democracia. Quando a pessoa chega ao ponto de achar que não tem mais nada para dizer com a banda, que o que interessa é só fazer o trabalho solo, temos que respeitar. Lamentamos, mas todo mundo se ama e é amigo até hoje.
Agora, você pode fazer tudo, cara! Acho o Barão uma banda tão bacana, tão legal… Há algo muito bonito quando estamos juntos, então, particularmente, não vejo por que sair. Mas cada um é cada um.
Suricato, você teve total liberdade quando entrou?
Tenho muita liberdade para tudo no Barão. Como tenho um trabalho solo, as coisas se complementam. Posso ser um ditador em meu trabalho solo e um democrata fofo junto deles. Escoar o talento é vital a qualquer artista, e muitas bandas acabam por conta desse celibato forçado. Há quem goste. Eu não consigo tocar um repertório de 20 músicas pelo resto da vida.
Houve músicas que funcionaram melhor a seu estilo?
Suricato: Ouço que as do Cazuza, por serem mais rasgadas, funcionam superbem. Já canto tudo nos tons originais e conhecia 97% do repertório. Não houve nenhuma adaptação. Quanto à guitarra, foi ainda mais fácil com um cara como o Fernandão. Eu amo o Fernandão! Quis fazer tudo “baseado em fatos reais”, sem profanar o que é clássico, mas com minha personalidade de deixar tudo do meu jeito.
Vocês adaptaram seu set para a nova fase?
Fernando: Na última turnê do Barão, usei um Pod HD500. Já tive Marshall JCM800, Mesa/Boogie Mark IV, e sempre usando som sujo de amp. Hoje estou completamente diferente: tenho um Marshall JVM410H, caixa Marshall de 4×12 e pedais da Fuhrmann: Punch Box, Hot Rod, Modulation Delay 2, Psico Vibe, Cool Chorus e Axcess Fuzz, que é o fuzz mais barato do mundo e que eu acho o mais “cascudo” de bom. E também wah-wah e sons da Marshall.
Tenho usado bastante pedais e gostado desse colorido. Sou endorser da Tagima, Marshall e Fuhrmann. De guitarra, tenho uma Tagima Strato que ganhei do Seizi em 2003, 2004, a qual chamo de Palmolive, por causa da cor dela. Tenho uma Tele preta desenvolvida pelo Zaganin e o William, da Tagima. E estou usando um wireless da Line 6.


Suricato: Agora estou de Fractal AX8, ligado no amp Pedrone Pegasus e caixa Roxtage 4×12. Estava sentindo falta de volume nos solos e optei por esse set. Com ele, o som de guitarra no fone é o melhor possível e, assim, canto muito melhor, uma vez que a mix sai mais condizente com o que realmente está acontecendo.
Uso uma Suhr Stratocaster, duas Music Maker, Telecaster e Les Paul, e por fim, uma Telecaster Rodrigo Suricato Signature, da Story Guitars (Canadá). Weissenborn Goldtone, violão Pallot, Tokai ou Larrivée. Vou variando.


Pensando no novo disco, qual é a cara do Barão que está se desenhando?
Fernando: Optamos por fazer a turnê antes do disco para nos familiarizarmos tocando. Já selecionamos algumas coisas de repertório, mas ainda não temos isso totalmente formado. Gravamos algumas coisas e vamos mixá-las para lançar daqui a pouco. Mas está um pouco diferente: é Barão, mas meio diferente.
Suricato: É um disco de canções, não necessariamente de superguitarras distorcidas e riffs eletrizantes. Tem isso também, mas não é exatamente meu foco. Uma das coisas que mais admiro no Frejat é que ele faz tudo funcionar milimetricamente para sua guitarra, como o John Mayer, por exemplo. Não tenho essa mesma determinação e talento.
O Maurício exerce um papel bacana de direcionamento. Considero-o um excelente produtor, extremamente focado. Os arranjos são todos coletivos.
O que dá pra adiantar do novo trabalho?
Suricato: É o primeiro disco do Barão desde seu debute composto apenas pelos integrantes da banda – sem letristas de fora, arranjadores etc. Um Barão dizendo suas próprias palavras. Não foi intencional. Todos são compositores, e eu também sou letrista. Temos muito material.
Fernando, e o Barão ajudando na saúde cardiológica? Como é isso?
Veio de meu cardiologista, o Dr. Gustavo Gouvêa, do Rio de Janeiro. Ele é o diretor da parte de cardiologia da Casa de Saúde São José. Procurou a mim e ao Rodrigo Santos, que na época ainda estava na banda, e nos convidou a participar dessa campanha. E, pô, com Meus Bons Amigos, que é uma música minha, do Guto e do Maurício, e tem tudo a ver.
A campanha, para quem não sabe, é para ensinar as pessoas a fazerem a massagem cardíaca quando alguém tem um infarte. O cara tem que pensar em Meus Bons Amigos ou em Stayin’ Alive, do Bee Gees (da campanha norte-americana), e fazer a massagem naquele ritmo (100 bpm), que é um ritmo bom para “acordar” o coração.
:::: DOIS SOLOS DE FERNANDO MAGALHÃES
O Poeta Está Vivo

“Gravamos Na Calada da Noite, entre 1989 e 1990, quando foi lançado. Foi uma época meio complexa. Os ensaios tiveram somente o Dé [Palmeira, baixista original], o Frejat e o Guto. Embora eu e o Peninha fôssemos músicos contratados, já estávamos completamente dentro do lance. Só que o Dé achava que seria legal ensaiarem somente os três para o disco, por uma questão de que a banda eram eles.
Tudo certo, mas aí o Frejat começou a reclamar. Ele meio que já achava que eu tinha que estar ali, e o Peninha também. Nos sentia dentro da banda – isso em 1989. Não que o Dé não gostasse, ele nos adorava. Somos muito amigos até hoje. Enfim, não foi por isso, mas ele saiu da banda nas gravações. Queria ter mais espaço para cantar.
Seguimos gravando, e no final, o Guto e o Frejat falaram para eu fazer o solo de O Poeta Está Vivo. Fui lá e fiz. Acho simples, mas ficou muito bonito. Usei uma Strato do Frejat, com um Mesa/Boogie Mark II dele e caixa Marshall. Simples, no captador grave.”

Meus Bons Amigos
“É engraçado como os guitarristas gostam do solo de Meus Bons Amigos. As pessoas ficam me pedindo para fazer vídeos e mostrar como se toca. Sinceramente, às vezes, nem eu sei fazer, de tão certinho como saiu no disco [risos]. Mas é uma música interessante. Os riffs são acordes abertos, e muitos fazem com power chords. Outro dia, postei em meu Instagram um vídeo de mim tocando, e várias pessoas comentaram ‘ah, é assim que faz?’ [risos]. Achei tão engraçado, curioso.”

