José de Holanda

Quebra-Cabeça é o novo álbum do Bixiga 70, um dos grupos instrumentais mais populares do momento. Não só no Brasil, mas no exterior, esses caras (nove integrantes) têm o dom de envolver plateias e de arrancar elogios calorosos.

Entre outras novidades desse, que é apontado como o trabalho mais complexo deles, está o fato de os instrumentos terem sido gravados separadamente. Cris Scabello (guitarra), Doug Bone (trombone), Marcelo Dworecki (baixo), Daniel Gralha (trompete), Maurício Fleury (teclado, guitarra), Cuca Ferreira (sax barítono), Rômulo Nardes (percussão), Decio 7 (bateria) e Daniel Nogueira (sax tenor) deixaram de lado a fórmula do ao vivo em estúdio seguida até então. E conseguiram um resultado vívido, bastante eclético.

Produzido por Gustavo Lenza e Bixiga 70, Quebra-Cabeça pode ser encontrado nas principais plataformas digitais e nas lojas físicas. Leia a entrevista com Marcelo Dworecki!

Ao contrário dos discos anteriores, em Quebra-Cabeça vocês gravaram os instrumentos separadamente. O que de novo isso te possibilitou?

A principal vantagem foi a praticidade. Quando se grava ao vivo, seu take bom tem que coincidir com o bom dos outros integrantes. Em Quebra-Cabeça, pude fazer meu take bom independentemente. Tivemos uma gravação menos cansativa do que quando estamos os nove músicos juntos, na mesma sala.

Depois voltei ao estúdio para escolher uns takes e montar outros – teve uns que compus com as partes boas de takes diferentes (isso aconteceu bem pouco). Geralmente procuro chegar às gravações com minhas linhas bem definidas. Meu principal foco é me manter regular entre o primeiro e o último take.

As bases remetem a sonoridades dos anos 1970. Qual é a concepção por trás do disco?

Um dos principais nortes dessa gravação foi soar mais moderno. Queríamos soar um tanto mais atual, por isso optamos por gravar tudo separadamente. Assim, deu para processar o som, algo difícil quando há vazamento de um instrumento no outro.

As bases soam mais setentistas porque aquela época é uma de nossas grandes influências. Uso um baixo da década de 1960 e sou bastante influenciado pelo John Paul Jones [Led Zeppelin] e Paul McCartney, mais até do que os baixistas de combos africanos ou do funk. Adoro os baixos de rock and roll das décadas de 1960 e 1970.

Porém, o Bixiga é reflexo do background de cada um de nós, então há diversas referências misturadas. Embora eu tenha levado esses elementos setentistas, a ideia era realmente soar um pouco mais sintético do que nos discos anteriores.

O repertório soa mais eclético de que nos discos anteriores. O que as turnês pelo exterior te acrescentaram?

Nas turnês, tocamos em diversos festivais. Então, temos contatos com outros músicos, e músicos de lugares diferentes do mundo. Isso é bem legal, porque você vê gente tocando de formas variadas. Nas últimas viagens, tive a chance de ver baixistas de muitos lugares do mundo. Pude conversar com eles, perguntar sobre equipamento, ver as passagens de som, e tal. Isso abre a cabeça, traz ideias e te mostra possibilidades que nunca imaginou.

Tivemos bastante contato com um pessoal de Gana, da Mauritânia, do Rajastão (Índia), europeus – não só baixistas, porque não sou influenciado só por baixistas. Só de se ter contato com outra cultura já está absorvendo novas inspirações para sua arte. Viajar enriquece muito nossa bagagem. Por essa razão, esse disco talvez soe mais eclético. E acho que isso irá acontecer cada vez mais.

O baixo desempenha um papel mais protagonista nas melodias. Fale um pouco sobre sua atuação nas jams de composição.

No Bixiga, costumo basicamente alternar entre duas atuações do contrabaixo: numa sou mais melódico e na outra, mais como um tambor. Várias as linhas de baixo nossas são como substituições das linhas dos tambores graves. Muitas de minhas linhas são ensinadas pelo Rômulo, que é nosso percussionista e tem um conhecimento grande de vários tipos de música do mundo.

Às vezes, ele canta uma melodia que seja mais ou menos a linha do tambor grave e transfiro para o baixo, acrescentando notas ou tirando as notas que ele está usando. Por outro lado, também tenho esse lado de tocar o baixo bem melódico, ate influenciado pelos baixistas que citei antes.

Várias das linhas graves não foram criadas por mim, assim como tem partes de guitarra que eu compus e passei para eles. As composições são coletivas e não existe protagonismo nesse processo.

Como surgem os títulos das músicas?

Geralmente, não começamos a compor pensando nos títulos das músicas. Partimos pela ideia, que se desenvolve e começa a criar uma imagem, até que se transforma em música pronta. Damos um apelido às composições, que vai indo, indo, até os 45 minutos do segundo tempo – quando temos que definir um nome. Daí, saímos atrás de títulos, normalmente lutando contra o relógio. Batizamos as músicas bem em cima da hora.

Os apelidos são os mais esdrúxulos possíveis. Desde que consigamos identificar a composição, está tudo certo! Na hora de incluir as faixas no disco, muitas vezes, não dá para usarmos esses apelidos, porque são totalmente absurdos – piadas internas, não fazem sentido.

Qual é o espírito que te mune instantes antes de pisar no palco?

Procuro me concentrar no show – se há dificuldade técnica, repasso tudo na minha cabeça; se é um repertório que não esteja tão habituado, passo mentalmente o setlist, para não ser pego de surpresa. No caso do Bixiga, uma das principais preocupações é estar desperto o suficiente, pois as apresentações são bem enérgicas.

Uma de minhas preocupações é estar acordado e ativo para conseguir desprender toda a energia que isso demanda. Claro, fico sempre o mais relaxado possível. Você tem que estar apto a tocar aquilo a que se propôs, se conectar com os colegas. E costumo não desligar. Por exemplo, não tomo nem água no meio das músicas. Evito mudar o foco no meio do som, mesmo que pare de tocar por alguns compassos. É para não me desconectar do show.

Qual é seu set atual?

O baixo que tenho usado mais é um Gibson EB-0, de 1969. Costumo levá-lo ao luthier Márcio Zaganin para regular – ele já fez grandes reformas nele, para mim. Uso cordas regulares, as mais grossas que encontrar. Não gosto muito de trocar as cordas do baixo. Nesse Gibson, até que não tem problema trocar, mas tenho um Precision do qual evito ao máximo trocar as cordas – só quando arrebentam. Evito porque não gosto do brilho de cordas novas, prefiro mais opacas.

Como o Gibson já é bem grave, não uso cordas lisa, senão o som fica embolado demais. Nesse baixo, uso sempre o controle de tonalidade aberto e no Precision, sempre fechado. Gosto de baixo soando grave!

De amp, uso o que tiver. Nas viagens, o que mais gosto de encontrar é aquele Ampeg SVT, dos mais antigos – quanto mais antigo, melhor, para valvulados. Aquele simplão, sem equalizador! No Brasil, o que mais gosto, que é mais comum, é o Gallien-Krueger. Para meu baixo, ele funciona bem. Mas não tenho preferência.

:::: DICAS

Confira abaixo algumas referências de bandas que o Bixiga 70 conheceu pelo mundo e que Marcelo Dworecki compartilhou conosco.

Pat Thomas & Kwashibu Area Band

Tinariwen

Los Pirañas

United Vibrations

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