Gabriel Thomaz: com a libido do Autoramas lá em cima

Felipe Diniz

Eles estão com disco novo, Libido, lançaram um criativo clipe em 360° (gravado em um banheiro), chegaram às duas décadas de história e se tornaram… TVeganos! Gabriel Thomaz (vocal, guitarra), Érika Martins (vocal, guitarra, teclado, percussão), Jairo Fajer (baixo) e Fábio Lima (bateria) soam mais afiados do que nunca!

O Autoramas traduz maravilhosamente bem o sentido de ser uma banda underground no Brasil. Desde seu início mantém uma postura peculiar e imune ao que movimenta a música na grande mídia. É algo a se tirar o chapéu. Por sinal, o single divulgado recentemente, Ding Dong, assina embaixo dessa qualidade de ser autenticamente livre, pois se trata de uma música basicamente instrumental — confira o clipe em 360° da faixa abaixo, após a entrevista.

Conversamos com o Gabriel, que nos deu uma geral no atual do grupo.

Por que vocês foram parar em um banheiro no clipe de Ding Dong?

Surgiu a ideia de fazer um clipe em 360° pelo nosso amigo Felipe Lavignatti. Logo lembramos do banheiro do Melody Pub, em Jundiaí (SP), que teria o tamanho exato para caber toda a banda e, mesmo assim, continuar caracterizado como banheiro. Saímos bem limpinhos, perfumados e penteados, e com vídeo divertidíssimo debaixo do sovaco desinfetado.

O aperto do banheiro também não deixa de lembrar o aperto que as bandas de rock têm passado nos últimos anos, no Brasil. Não?

Sempre foi difícil ter banda de rock no Brasil. Não é de hoje. Aliás, não só o rock, mas qualquer gênero. Às vezes, alguns dão sorte de pegar a onda de uma moda que esteja em voga, mas dura muito pouco. Cansamos de responder a mensagens de artistas que já estiveram na crista da onda nos pedindo ajuda.

No início de nossa trajetória, optamos por um caminho que nos permitiu construir uma carreira. Não dependemos de humores de “mercado” (palavra que nos faz dar risada), e estamos aí, firmes e fortes, fazendo a música que gostamos e sendo profissionais. Sabemos que para quem só segue o que o “mercado” manda esse papo não tem a mínima graça. Porém, não somos eles. Acreditamos em outras coisas: carreira, verdade e autenticidade.

Depois da surpresa com o vídeo em 360°, já dá para pensar em outras produções assim? Combinou bastante com o estilo do Autoramas.

Autoramas_Libido

Temos outros clipes saindo da gaveta, mas virão com outras ideias. Já tínhamos saído com outro clipe desse álbum, o da música Stressed Out, feito por nossos amigos Leandro Franco e Vébis Jr, cuja ideia era a de um fanzine animado. Ficou excelente!

O quanto o título Libido tem a ver com a temática das faixas?

Libido tem mais a ver com o momento da banda, que está fazendo 20 anos de carreira – com a libido lá em cima. Entendeu? [risos]

A sonoridade do disco está bem interessante: tem guitarra limpa com guitarra suja, o que dá um peso vintage saboroso. Existe algum esquema/divisão para as partes de guitarra entre vocês?

Eu geralmente toco mais guitarra e a Érika é polivalente: toca órgão, miniguitarra, e efeitos, também, no próprio microfone. Não existem regras.

O som em geral do Autoramas ganhou um punch especial com a entrada da Érika, em 2015. Ficou meio The Cramps. Uma transformação e tanto ao longo de 8 discos, não?

Érika deu um ganho muito grande à banda. Em se tratando de vocais, não tem comparação! O Cramps sempre foi uma referência para nós. Estamos bastante felizes com a nova fase. Ao longo de nossa carreira, sempre trabalhamos juntos nos bastidores, e agora é 100%!

Há bastante tema em inglês. O público que conquistaram no exterior mudou a abordagem de vocês, criativamente falando? 

A quantidade de viagens e o hábito de falar e conversar em inglês vai trazendo as ideias nessa língua. Acaba sendo mais uma opção. Sempre tivemos vontade de trabalhar mais músicas em inglês, e achamos que chegou o momento. No mundo superficial da música de hoje, é um luxo podermos arriscar!

Não fosse o título, eu pensaria que Libido foi um álbum composto às sobras do Brasil atual. O quanto essa bagunça toda que está aí fora interage com suas ideias?

É uma loucura, porque vemos as pessoas acreditando em um monte de mentiras e vamos construindo nosso mundo com as nossas verdades. O disco é totalmente transviado. Até jogamos nossa TV fora, viramos TVeganos. E vamos com tudo! Já temos um nono disco prontinho na cabeça.

:::: EQUIPAMENTOS

Guitarras

Gabriel: Eko (italiana, de 1968) e Fender Telecaster (anos 1990)
Érika: miniguitarra Loog Guitars (Uruguai)

Palhetas

Gabriel: Jim Dunlop
Érika: Fender

Pedais

“Usamos pedais da EFX, inclusive o Gabriel lançou sua linha Gabriel Thomaz Series. O primeiro lançamento foi o Vibratoramas, pedal que ele mais usa, e Fuzzoramas, com o som característico do baixo do Autoramas.”