
Nascida no Arizona (EUA), há 29 anos, Nik West tornou-se uma espécie de fenômeno do baixo nos últimos anos. Não bastassem sua incrível capacidade de tocar, com uma performance rebuscada e musical, e a voz marcante, o visual define bem quem é: uma artista carismática e dona de um groove sensacional.
Se você precisa de provas ou nomes que chancelem o que acabou de ler, então veja algumas das figuras com quem ela trabalhou: John Mayer, Orianthi, Dave Stewart (Eurythmics) e Prince. E mais: Bootsy Collins, Steven Tyler (Aerosmith) e Lenny Kravitz já teceram suas palavras de admiração.
Apesar de colocar sua veia a serviço de outros artistas, West vem solidificando a carreira solo. Em 2015 lançou uma versão para ‘Back in Black’, clássico do AC/DC, com um vídeo maravilhoso. No ano seguinte foi a vez de divulgar a eletrizante releitura de ‘Get on the Floor’, de Michael Jackson, somente com baixo e vocal. Dois vídeos de grande sucesso na internet.
No final de 2017, a baixista e vocalista lançou o single ‘Purple Unicorn’, uma irresistível canção funk composta por sua irmã, Nichelle West, e gravada ao lado de MonoNeon (guitarra solo/Prince) e Lil John Roberts (bateria/Janet Jackson). Adivinhe? Mais sucesso…
Não poderíamos deixar de conversar com Nik West, que está preparando um álbum de inéditas para 2019. Confira e compartilhe!
Você tem um quê percussivo quando toca que é bem cativante. Mesmo sozinha, soa como se estivesse com uma banda completa. De onde vem esse seu lado “baterista”?
Não sei direito, mas realmente penso como um baterista quando toco baixo. Recentemente, preparei 160 loops de baixo para o site Splice, de modo que compositores possam se inspirar por minhas linhas para suas canções. Quando preparava as ideias para os loops, notei que pensava, primeiro, no ritmo e depois nas notas. Ou seja, após definir o ritmo, eu colocava as notas.
Muitos destacam influências em você, tais como Larry Graham ou Marcus Miller. Mas qual é sua própria marca? Seria justamente esse lado baterista?
Esses baixistas que citou, definitivamente, são algumas de minhas influências, assim como Louis Johnson e Jaco Pastorius. Lá atrás, quando comecei a aprender a tocar, ouvia bastante Yellowjackets e Jaco. Mais tarde, quando conheci o Prince, passei a escutar muito Larry Graham (que era o baixista favorito do Prince). O Larry tem essa coisa percussiva no baixo. Acho que esse lado baterista é o que faço de melhor. Sem isso, sinto-me meio fora do groove.
O que significa groove, em sua visão?
Para mim, groove é acentuar no tempo 1. Especialmente no funk, groove não é groove sem o tempo 1. Tocar com um baterista significa me conectar ao bumbo primeiro e depois adicionar preenchimentos simples, mas saborosos, no meio disso. Um groove é a parte de uma música com a qual todo mundo se identifica. É a parte que se repete até as pessoas identificá-la como groove. Quando isso ocorre, posso ir e vir ao redor disso. Porém, se o público em geral não consegue identificar qual é o arroz-com-feijão da música, então não se trata de um groove.
Você estuda bastante? Como é sua relação com o baixo?
Não estudo tanto quanto deveria. Essa é a razão pela qual decidi começar a fazer vídeos no hotel, enquanto estou em turnê, ou em casa. Foi a maneira que encontrei para aprender músicas e estudar coisas novas. Me comprometi a carregar esses vídeos on-line para que todos possam assistir. Toco umas dez vezes, ou mais, cada música até pegar as manhas. Não penso se irão viralizar. Faço bastante turnês, então, estou sempre tocando canções que conheço… Entretanto, quando divulgo vídeos de covers, mostra genuinamente que estudo coisas novas em minhas folgas.
Quando pensa nos grandes nomes da música com quem já trabalhou, qual foi aquele que tirou o melhor de você ou que te desafiou mais?
Acho que Dave Stewart ajudou a me envolver com todos os estilos musicais e a ser capaz de tocá-los com autenticidade. Saímos em turnê com o Sugarland, o que me colocou na country music pra valer… Depois trabalhei com Marylin Manson, com quem toquei muito metal.
Dave Stewart me ensinou o que significa ser uma artista e como se manter de pé. Claro que quando conheci o Prince, alguns anos mais tarde, já havia me paramentado com esse moicano roxo louco e já tinha meu próprio estilo. Mas ele me fez certificar e validar quem eu sou e para onde quero ir. Foi o Prince quem me desafiou a mergulhar em meu baixo e tocar agressivamente.
Poderia passar o dia inteiro te dando detalhes, mas, enfim, foram esses que dedicaram um tempo a mim e que realmente me inspiraram bastante.
Quando fiquei sabendo de sua versão para ‘Back in Black’, do AC/DC, achei que fosse encontrar algo bem diferente da música original. Mas você acabou mantendo a linha simples de Cliff Williams. Por quê?
Adoro essa música, e acho que está ótima do jeito que é. Já ouvi um monte de gente fazer cover dela de maneira diferente, mas sempre volto à verão original e a adoro ainda mais.
Há músicas que não deveriam ser tão alteradas. Quando gravei ‘Back in Black’, foi mais para mostrar ao mundo como é meu jeito de cantar do que o que sei no baixo. Não quero ser vista como uma baixista que sabe cantar. Quero ser vista como uma artista que não precisa do baixo para brilhar – o baixo é uma extensão de quem já sou.
Sua versão para ‘Get on the Floor’, do Michael Jackson, é bem empolgante, no sentido de que evidencia habilidades no baixo e nos vocais. Você fez parecer fácil tocar e cantar ao mesmo tempo.
Essa música foi difícil de aprender, porque eu queria tocá-la corretamente e cantar a melodia certa, além de acrescentar um pouco de meu estilo. Não é fácil, mas fiquei praticando lentamente até conseguir executá-la no tempo certo. Eu ia dizer mesmo que quando comecei a tocar baixo, cantava junto… Portanto, cantar e tocar são coisas que sempre fiz simultaneamente.
Você compõe bastante? O que diria sobre sua veia compositora?
Não, não acho que componho bastante… Porém, tenho muita experiência nos altos e baixos da vida, e escrevo de meu jeito sobre cada um deles. Escrevo sobre minha vida. Para mim, isso é muito simples. Minha irmã compõe sobre tudo, e às vezes, quando quero uma música que não seja diretamente relacionada a minha vida, dou um toque a ela para me ajudar com alguma ideia.

‘Purple Unicorn’ é tão funky e vibrante. Como a conexão entre você, MonoNeon e Lil John Roberts transformou a ideia original para essa música no que ouvimos?
‘Purple Unicorn’ é uma música divertida. Surgiu dos loops que criei para a Apple. Chamei o MonoNeon e o Lil John para trazer o lado mais funk da canção. Lil John é muito bom em dar vida a uma canção e mantê-la pop. Acredito que seja por isso que tocou com a Janet Jackson por tanto tempo. MonoNeon tem um jeito de fazer coisas superesquisitas e ainda assim bem funk… o que combina perfeitamente com a vibe de ‘Purple Unicorn’.
O single soa como um encontro entre Prince e Bootsy Collins, o que é ótimo! Você sente falta de ouvir mais funk nas rádios, hoje em dia?
Só escuto músicas antigas. O funk não era popular ou estava em alta em qualquer época de minha vida. Se você nasceu no último ano da década de 1980, dificilmente viu/vê artistas de funk. Tive de recorrer aos caras das antigas para curtir esse tipo de música – Prince, Parliament-Funkadelic, Bette Davis, Sly Stone, George Duke, Chaka Khan, etc. Tenho usado meus canais para resgatar o funk o máximo que posso para apresentá-lo à molecada.
Você tem um álbum a caminho. O que dá para adiantar sobre esse material?
Esse álbum é especial para mim, porque trabalhei com muitos de meus heróis. Tem uma música que Larry Graham e eu compusemos e produzimos juntos. Foi como um sonho trabalhar com ele! Macy Gray também está na lista de meus heróis musicais, pois seu vocal é superúnico e ela é uma grande compositora. Aprendi bastante vendo-a no estúdio. Há mais surpresas em relação a convidados especiais… Esse disco tem funk, rock e pop de alta qualidade, e ainda incluí um pouco de raízes do gospel. Alta potência!
Você é uma maníaca por baixos Fender? Qual set tem usado?
Amo Fender! Sou apaixonada pela nata dos Jazz Bass. São superversáteis, e não preciso levar outros baixos quando estou na estrada. Consigo um monte de sons deles. Uso cordas Dunlop Super Bright de calibre médio, as quais dão o brilho de que preciso para coisas funk, e esse brilho dura um bom tempo.
Os cabos são os Nik West customizados pela Intex Cables. Raramente uso cabo quando estou ao vivo, já que quase sempre conto com sistema sem fio. Tenho cabeçotes Warwick LWA 1000 e caixas 8×10. Porém, recentemente comecei a usar uns amps novos da Orange, e tenho adorado!
Meus efeitos geralmente vêm de minha pedaleira, com o MXR Envelope Filter que o Bootsy [Collins] me deu, assim como o Dunlop Cry Baby Mini Bass Wah. O Bootsy me colocou em contato com diversos tipos de pedais… Também tenho usado um compressor da TC Electronic. Trabalhei junto com a TC Electronic num set especial, chamado Nik West Born Again Compressor – eu odiava compressores até projetarmos este.
Meu último pedal é um fuzz para baixo da Danelectro. A primeira vez que vi um desses foi no Paisley Park [estúdio de Prince], no equipamento da baixista Ida Nielsen. Ela me disse que o Prince adorava esse pedal, mas que havia saído de linha há anos. Mas eis que encontramos um deles no eBay! E quando fui trabalhar com Larry Graham, ele tinha um!!! Então, me dei conta de que tinha feito a escolha certa!
Como escolhe o set que irá usar: pelo tipo de música ou baseada em seu próprio estilo como baixista?
Tenho meu próprio som, que gosto de manter. Meu timbre e meu equipamento tornam a pegada no baixo muito melhor. Se o timbre que usar não for o meu, fica difícil sentir vontade de tocar. Entretanto, eu diria que se você é um(a) baixista que trabalha para outros artistas, é legal estudar o estilo e o timbre das músicas dele e se ajustar de acordo.
O Prince queria que eu tocasse algumas músicas com palheta, com determinado pedal, com um baixo diferente, etc. Já Dave Stewart não se importava com seja lá o que eu fizesse, a meu modo. Porém, atuando como artista solo há tanto tempo, desenvolvi meu próprio som, e não quero alterá-lo. Então, depende de sua situação.
Você é um ótimo exemplo de protagonismo do baixo e de empodeiramento feminino. Sente que tem esses papeis?
Humm… Acho que poderia ser um ótimo exemplo, só que não fico pensando sobre isso. Sou mais a fim de simplesmente ser quem eu sou. Se as pessoas gostam, ótimo! Se elas se inspiram em mim, melhor ainda! É isso o que me inspira a seguir adiante!
