
O que dizer de um cara que ganhou respeito no Brasil e no exterior? Ainda que essa conquista tenha sido à parte da grande mídia, o quilate de Igor Prado é incontestável. Guitarrista versátil, habilidoso e carismático, além de um produtor de mão cheia. Já tocou com uma lista vasta de artistas. Resta-nos apenas reverenciá-lo!
Em 2018, após um período razoável trabalhando com tantos nomes, o músico decidiu voltar os olhos a sua carreira solo. E fez isso com ares novos, deixando seu blues rock meio de lado para explorar o funk e a black music. Juntou-se com o JustGroove, grupo com Rael Lúcio (baixo/Mano Brown, Seu jorge), Jesiel de Oliveira (guitarra/Mano Brown, Thalles Roberto) e André Azevedo (bateria). Acertou na escolha!
Em junho saiu o EP ‘Fu#ky U All’, pontapé inicial de uma série de lançamentos que culminará num álbum – provavelmente produzido por uma caprichosa figura.
Nesta segunda-feira (9), Igor Prado & JustGroove vão Bourbon Street Music Club, em São Paulo, para aproveitar o feriado paulistano e apresentar esse show (informações aqui). Será uma noitada dançante, regada a um repertório eclético e pautado na pulsação da black music.
Depois de anos dedicando-se a um rock/blues vintage. Com o novo EP, dá para dizer que inovou em sua trajetória?
Sim e não [risos]. É muito louco: desde o começo, sempre gostei de funk e soul contemporâneo. Em meu primeiro álbum solo, ‘Upsidedown’ (2007), tem uma faixa extra em tributo ao saxofonista Maceo Parker. Não tem nada a ver com o repertório, mas está ali.
Sempre ouvi muita coisa diferente, e creio que agora, devido a vários fatores, estou disposto a misturar tudo e criar uma linguagem mais própria, mais minha mesmo. Voltei a estudar guitarra, e pela primeira vez na vida estou estudando canto e reaprendendo e redescobrindo um monte de coisas. É como se começasse novamente. Estou muito feliz e animado nessa nova fase de minha carreira!
O diálogo com Rael Lúcio e Jesiel de Oliveira está bastante afiado. Soa vibrante, vívido. Como chegou ao pessoal do JustGroove?
Um conhecido em comum já tinha me falado do Jesiel, que é um monstro do funk/gospel. O cara é uma referência no circuito gospel. O Rael, também experiente baixista e produtor musical dessa cena black e do gospel, havia feito trabalhos para mim, acompanhando o trompetista Boney Fields.
No final de 2017, descobri que praticamente cresceram juntos na mesma igreja. Decidimos começar esse projeto, que é uma mistura de tudo o que gostamos. Os dois tocam com uma galera da pesada .
A conexão que têm tocando, o que inclui o baterista André Azevedo, é absurda! Tocam black music, funk, soul e gospel desde criança, na igreja, e vêm de um legado muito da pesada de gospel. Por exemplo, o tio do Rael é o baixista Ted Furtado, que foi da banda Kadoshi, precursor e lenda viva nessa onda de black funk slap no Brasil.
Para os shows, vão de Justin Timberlake, Tim Maia, Jorge Ben a Johnny “Guitar” Watson e B.B. King. Uma expansão e tanto em relação ao que se acostumou a tocar.
Sim, total – sem citar inserções de Living Colour e Red Hot Chili Peppers [risos]. É meio que tudo o que ouvi desde pequeno em rádio e em casa misturado nessa onda blues, funk. Soa mais verdadeiro, genuíno a mim. Não há mais a preocupação de soar blues dos anos 1940 ou 1950 ou de soar “blues”, muitas vezes [risos]. Porém, é difícil, porque minha base musical é calcada nesse estilo. Enfim, está rolando algo bem interessante.
Para quem pensa que seu negócio é só blues e rock and roll, quais são os estilos que têm inspirado sua forma de tocar, atualmente?
Ah, muita coisa diferente: R&B moderno, ou neo soul, como chamam essa coisa meio D’Angelo colocando juntos o hip hop e o soul. Me agrada bastante. E várias coisas da fase funk/disco do Johnny “Guitar” Watson. Ele é uma das maiores inspirações para mim. É um cara que veio do blues tradicional e mudou completamente, mas mantendo aquela guitarra bluesy com muita propriedade.
Também tenho curtido muito hip hop, coisas de J Dilla. Fico imaginado um encontro de Lightnin’ Hopkins com uma batida do Dilla e uma percussão afro-brasileira acentuando os tempos 1 e 3 [risos]. Viagens de minha cabeça de produtor musical…

Esse é o primeiro de outros EPs, certo?
Minha ideia é lançar algo novo a cada dois meses. Trata-se de um “laboratório valendo” para o que será um álbum, no ano que vem.
Qual é a perspectiva para a divulgação na estrada de ‘Fu#ky U All’?
Outro motivo de eu estar tão animado é fazer uma turnê no Brasil só com meu trabalho solo. Começamos em julho, com 5 shows em festivais, e estão vindo mais coisas legais em agosto.
Sempre estou na estrada, mas muitas vezes tocando ou produzindo um artista internacional. Contudo, em 2018, decidi rodar o país com esse projeto novo. Fazemos o show em quarteto, e ainda rola um sample ao vivo, disparando backing vocals, percussões e outras maluquices. Estou curtindo demais!
Você se sente mais acolhido pelo público estrangeiro? Parece que foram as plateias de fora do Brasil que pavimentaram sua caminhada.
Sim, super! No circuito do blues, sempre fomos bastante acolhidos, e ainda somos. Este ano toquei num festival tradicional na Califórnia, o Gator By The Bay, e tive muito, mas muito, feedback das pessoas sobre o embrião desse novo projeto.
Creio que muita gente que confia em meu trabalho e me conhece espera algo novo, diferente. Seria cômodo fazer outro álbum de blues tradicional com convidados e, de repente, até conseguir outra indicação no Blues Music Awards, como em 2016 – quando nos tornamos a primeira banda sul-americana a ser indicada ao prêmio.
Não consigo ser assim. Praticamente “recusei” um segundo álbum por nossa gravadora norte-americana no mesmo formato do ‘Way Down South’. Isso gerou discórdia para algumas pessoas, mas tenho bem certa a direção que estou tomando. Já apareceram outros parceiros interessados, principalmente de fora do país. Quero fazer o que meu coração fala, sempre!
O EP traz duas regravações. Se levarmos em conta a proposta dos shows, te pergunto: haverá espaço para composições autorais?
Sim, são duas versões completamente diferentes das originais, mas tenho composto bastante material. Aprendi muito sobre composição com o cantor/compositor Earl Thomas em nossa última turnê pelo Brasil, em fevereiro.
Para mim, ele é o maior compositor vivo dentro do circuito. Não é à toa que Etta James, Joe Cocker, Tom Jones e Solomon Burke gravaram diversas coisas dele. Estou, inclusive, produzindo seu próximo álbum – bastante feliz e honrado com o convite. Ele acredita nesse blend de blues e funk norte-americano com o suingue brasileiro.
O que dá para adiantar do álbum que gravará no final deste ano?
Será o álbum mais “Igor Prado”, o mais verdadeiro, que já lancei em toda minha carreira – talvez o maior desafio musical que já entrei.
Um produtor norte-americano sondou você para cuidar das gravações?
Sim, são dois caras, mas a pessoa que plantou esse embrião em minha cabeça há dois anos foi o Jim Pugh, tecladista e produtor musical. Ele já produziu Robert Cray, Bonnie Raitt e Etta James e tem um currículo absurdo. É um cara superantenado!
O mundo da música, por conta da internet, voltou a se pautar por singles e EPs. Para alguém que trabalha com tantos artistas diferentes, como você, esse esquema é uma mão na roda, hein?
Tem o lado bom e o ruim, também. Sou da época do CD, do álbum com 10, 12 faixas. Estou me acostumando a esse lance dos EPs [risos]. Porém, para meu projeto, cai como luva, pois a cada dois meses lanço faixas completamente diferentes, as quais talvez não caberiam no mesmo disco. Como falei anteriormente, é um “laboratório valendo”.
O Igor Prado & JustGroove te fará paralisar as atividades com outros artistas e as produções que faz?
Sim e não [risos]! Na verdade, a ideia para 2018 era a de focar somente no projeto, mas veio um convite de fora, em março passado, e gravaremos um álbum. Será para um artista norte-americano com os meninos e três músicos lá, dos Estados Unidos. É outro laboratório-valendo [risos].
:::: EQUIPAMENTOS
– Guitarras: “Estou usando a velha Fender Strato (com os dois Z90, da Harmonic Design) e a nova Telecaster que leva meu nome, uma Custom Shop do luthier Paulo Chiara, de São Paulo. É uma Tele semissólida com três captadores P90, com defasagem para fora de fase nas posições do meio. A sonoridade para esse trabalho funk é bem mais aguda e menos média do que os de blues tradicional. Ambas com cordas Dean Markley Blue Steel .010, de que sou endorser desde 2017.”
– Amp: “Um Peavey Pace anos 1980, transistorizado – isso mesmo, transistor [risos]! Engraçado como a resposta do transistor, mais rápida do que a dos valvulados, faz mais sentido para coisas altamente rítmicas, tipo funk. Por isso que a maioria dos guitarristas de funk, soul gospel norte-americano usa amps desse tipo. Pouca gente sabe, mas o B.B. King usou transistorizado nos últimos 20 anos da carreira.
Mas ainda uso direto meu Marshall Bluesbreaker Clone com falantes Weber Ferromax. Outro amp que a galera do blues odeia e o pessoal do funk ama é o Roland Jazz Chorus. O Jesiel tem um e eu adoro para shows.”
– Efeitos: “Estou igual a uma criança, pois sempre usei praticamente amp valvulado, cabo e reverb de mola outboard. Agora tenho a liberdade de incrementar o que quiser ao som. Minha pedaleira, customizada pelo André Chiara, da Chiara Guitar Parts, tem uma fonte Voodoo Labs, um buffer Emerson Concord (sugestão do mestre Marcos Ottaviano, que me ajudou bastante nesse lance dos pedais).
A ordem é: afinador TC Elevtronic Polytune + 1 Perscription Electronics Experience Fuzz-Octave + 1 Boss Octave OC-2 + 1 Mad Professor Mellow Yellow Tremolo + 1 Boss RT-20 + 1 Boss Digital Reverb RV-5 + 1 Boss Equalizer GE-7. De vez em quando uso um auto-wah que está com o Jesiel, aquele Ibanez antigo, dos 1980. Estou reaprendendo aplicar esses efeitos, as dinâmicas, etc.
Uma curiosidade: mesmo com tudo isso, nas gravações do EP teve muita guitarra ligada direto em linha. Toda a base rítmica foi feita comigo e o Jesiel tocando em pan aberto – são duas guitarras em linha! Como o Nile Rodgers já falou faz tempo, não tem nada mais funky do que uma guitarra elétrica em linha!”
:::: VÍDEO
Confira Igor Prado & JustGroove ao vivo, no Festival de Verão de Iguape 2018, e sinta o groove!
